
A diarista que trabalha aqui em casa, Leide, vai votar na Marta Suplicy. E me explicou porque:
“Tenho quatro filhos e moro lá no final da Parelheiros. Antes da Marta prefeita, eu pegava no mínimo quatro conduções por dia para trabalhar e tinha que gastar dinheiro em todas. Os ônibus eram muito velhos, caindo aos pedaços – vira e mexe, quebravam no caminho; ou eu desistia e voltava pra casa, ou pegava uma daquelas lotações clandestinas, que corriam muito e eram ainda mais caras que o busão. Meus filhos não tinham material escolar e nem roupa; tinham vergonha de ir à escola vestindo ‘roupinha pobrinha’ – me contavam que eram discriminados pelas outras crianças que tinham pelo menos uma havaiana pra calçar. Fora da escola, lá no bairro, as crianças não tinham nada pra fazer, nenhum lugar pra brincar ou pra aprender alguma coisa boa. Daí veio a Marta, ela inventou o bilhete único e eu passei a gastar metade do que gastava em condução – e os ônibus melhoraram, tinha até ônibus cheirando a novo na periferia! E mais: a Marta foi lá e inaugurou um CEU – por isso, pela primeira vez na vida, meus filhos foram no cinema”. Esse breve depoimento dá a pista para aquilo que considero o mais importante na minha decisão de voto em Marta Suplicy. Esse voto é um ato de desprendimento, um ato de amor ao próximo, um ato POLÍTICO de ALTRUÍSMO. Isso porque, ‘na real’, para um cara como eu ou como você que lê esse blog, não faz muita diferença se ganha a Marta, o Kassab, ou o Alckmin, ou até mesmo o Maluf – esses dois, se ainda estivessem no páreo. Continuaríamos com nossas vidinhas mais ou menos na mesma, com nossas pequenas ambições, nossas pequenas conquistas, nossas pequenas posses. Mas o problema é que a maior parte da população precisa - e depende - de governo. Senão, falta até comida. Aqueles que acham, por exemplo, que a popularidade do Lula é um fenômeno de mídia ou fruto da ignorância do povo, enganam-se completamente. É gente que não comia e passou a comer – se o Lula pular do vigésimo andar, o cara pula atrás.
E é o egoísmo das classes mais altas que revolta. Já ouvi gente dizendo: "não preciso de creche, não preciso de bilhete único, nem de banda larga de graça, muito menos de programas sociais. Por que político só tem proposta pra pobre?" Classe me®dia conservadora, mesquinha, hipócrita. Não vale o que come.
Os filhos da Leide não preferem filme de humor a suspense, não saberiam escolher entre um passeio no parque ou uma tarde em casa fuçando na internet. Simplesmente porque essa realidade não existe. Uma pesquisa feita na Cidade Tiradentes, quando o primeiro CEU foi inaugurado, mostrou que 90% da população NUNCA tinha entrado num cinema. Mais que isso: nos CÉUs, além da educação básica, tiveram a chance de aprender dança, fazer cursos artísticos, balé, cursos de línguas, várias coisas: tudo aquilo que nossos papais e mamães de classe média alta insistiam/pagavam para fazermos, para termos cultura, para termos acesso a oportunidades. Já ouvi também muita gente dizer, entre risinhos, que é besteira fazer coisa de qualidade pra pobre – o cara não tem nada mesmo, qualquer coisa tá bom. Pura maldade de quem não sabe enxergar um palmo adiante do nariz.
Pois Marta deu o feijão e o arroz, mas deu também a cereja do bolo. E mais: a prefeitura de Marta Suplicy distribuiu uniforme e material escolar de qualidade para mais de 1 milhão de crianças em São Paulo. Fui testemunha de uma cena emocionante, uma vez no Parque do Ibirapuera, quando organizei um dia inteiro de oficinas musicais para as crianças de 4 a 8 anos, da rede pública do tempo da Marta. Quando a prefeita chegou pra conferir a ação, todas, absolutamente TODAS as crianças, pararam o que estavam fazendo para aplaudi-la, para abraçá-la, para beijá-la, para simplesmente estar com ela.
Enquanto a grande parcela da burguesia opta por Kassab e uma outra reclama do sistema e diz que Marta e Kassab são iguais (mas vota no segundo, ou nulo, ou branco), a galera de Parelheiros, Cidade Tiradentes, São Miguel Paulista, Brasilândia e outros lugares paupérrimos preocupam-se com a educação de seus filhos, as parcas oportunidades de trabalho, a condição da saúde pública e a existência de comida no prato ao fim do dia. Será que só populismo explicaria a quantidade de votos de Marta nas regiões mais carentes - assim como a vitória avassaladora de Kassab nas áreas mais ricas?
Acabei de ver na TV o ‘ direito de resposta’ do Kassab. A Justiça concedeu isso por considerar que a campanha da Marta ofendeu o atual prefeito. Perguntar se alguém é casado é ofensa? Puxa... não sabia... Também acho que foi uma cagada o pessoal da Marta levantar essa lebre, mas acho ainda muito mais ridículo, absurdo e revoltante, a relevância que tal fato gerou na mídia em geral. Nas eleições anteriores, a campanha do Serra distribuiu panfletos com o título ‘ Dona Marta e seus dois maridos’. Alguém se lembra de alguma manchete na Folha ou no Estadão sobre isso? Não, porque não houve. Mas certamente, muitos se lembrarão das várias fotos, nas primeiras páginas dos jornalões, onde seus autores procuravam maldosamente um momento fugaz para ridicularizar e desrespeitar Marta – fotos dela cruzando as pernas, até foto de suas pernas DEBAIXO DA MESA me lembro de ter visto. E onde estavam os arautos do politicamente correto, os defensores do não-preconceito? Onde estava o Sr. Contardo Calligaris – sujeito de quem gosto (ou gostava...) – e que ontem escreveu ridículo artigo comparando Marta a McCain?
Votar em Marta é votar pelo bem da maioria, é votar pelo abrandamento da tremenda injustiça social que abala e envergonha essa cidade. Votar em Marta é uma obrigação para aqueles que se preocupam em enxergar além de suas próprias vidinhas mesquinhas e patéticas.
Marta Suplicy para prefeita de São Paulo. Tenho dito.
PS: Esse post revela de forma cristalina o que penso dessa eleição, mas boa parte dele foi descaradamente chupado de escritos recentes do Gabriel e da Ana Clara – a quem louvo, dou crédito e agradeço.