
O Quênia está em festa: Barack Obama é o novo presidente dos Estados Unidos. Foi naquele país do Leste africano que nasceu o pai de Obama; e lá vivem sua avó paterna e alguns de seus tios e primos. No vilarejo de Kogelo, no noroeste do Quênia, sem asfalto nem água encanada, vive sozinha a Mamah Sarah – 86 anos, avó de Obama. Há dois anos, ela recebeu em sua casa a visita do neto famoso; desde então, quase diariamente recebe jornalistas, políticos e todo tipo de gente com os mais esdrúxulos pedidos. E há pouco tempo, uma agência de turismo lançou um pacote turístico que inclui uma visita ao vilarejo. Fico imaginando a enorme expectativa dos africanos em geral, na esperança de que Obama altere as relações entre EUA e África: o fim dos subsídios agrícolas, o perdão de dívidas, polpudos investimentos em saúde, educação, saneamento básico... É muita coisa, é um peso enorme nas costas do novo presidente da superpotência. E isso, falando só de África...

Mas a simples eleição, para a presidência dos EUA, de um negro que tem o apoio dos americanos esclarecidos (sim, eles existem) e a boa vontade da comunidade internacional, é um fato que alegra, que dá esperança. Destaco alguns trechos de entrevista publicada na Folha de ontem, com o cineasta Spike Lee. Seu filme mais recente, “Milagre em Santana” (que deve estrear no Brasil só em fevereiro), conta a até hoje inédita história da participação dos soldados americanos negros na Segunda Guerra Mundial:
“Os negros que se alistaram para lutar pelo seu país em 1944 encontraram as forças armadas americanas completamente segregadas. Linchamentos ainda eram comuns. Eles eram considerados cidadãos de segunda classe... conheci vários veteranos do 92º. Batalhão de Infantaria. São heróis americanos, que tinham todos os motivos para serem mais amargos pela maneira com que os EUA os trataram, mas que estão felicíssimos porque jamais imaginaram que um dia poderiam votar em Barack Obama para a presidência desta república que é deles também. Há para eles, mais do que nunca, a certeza de que todos os sacrifícios que fizeram, fazem todo o sentido... e eu mesmo cresci no Brooklyn vendo filmes de guerra; e tudo o que via era John Wayne. Só soube dos Buffalo Soldiers porque meu pai e meus irmãos ouviam e contavam histórias de motoristas de caminhão que haviam sido voluntários negros da 2ª. Guerra e foram escolhidos para transportar munição até Berlim, dirigindo à noite, sem luz, escondidos, para ajudar na derrocada final de Hitler. Ninguém sabe disso. E outro fato que poucos sabem é que boa parte dos alemães capturados foi mandada para o sul dos EUA, onde dividiram espaço com soldados negros. Agora, pense nesses jovens negros que se alistaram e eram treinados pra matar nazistas e depois, em sua terra, viam os brancos alemães recebendo mehor comida, tratamento médico e alojamento do que eles; sendo bem recebidos em lanchonetes de Louisianna onde os negros tinham lugares específicos para se sentar”.
Pois é... e além de toda a expectativa mundial, Barack Obama recebe a ‘herança maldita’ do governo Bush, avaliado por muitos como o pior de toda a história dos Estados Unidos. O trabalho de limpeza ali não vai ser fácil. Mas isso não é novidade para os negros:
“O branco inventou que o negro quando não suja na entrada, vai sujar na saída...que mentira danada.... Na verdade a mão escrava passava a vida limpando o que o branco sujava. Êta branco sujão!” – G.Gil