
Disco novo de Caetano na praça: ‘Zii e Zie’. Titulo estranho para mais um lançamento estranho dessa estranha fase do amado&odiado compositor. Ele parece viver um período meio indefinido e esquizofrênico. Por um lado, é muito bom que seja assim: afinal, é reconfortante ver alguém chegar aos 66 anos ainda com a chama da inquietude, da experimentação, com o gosto pela novidade. Mas esse é o mesmo cara que, muito recentemente, esbanjou caretice e conservadorismo naquela série de shows/cd/dvd ao lado do Roberto Carlos. Desde o disco ‘Cê’ – que acho que muito pouca gente, além de mim, gostou -, Caetano parece buscar alguma espécie de elixir da juventude: aliou-se aos amigos de seu filho Moreno - os ‘meninos’ Pedro Sá, Ricardo Dias Gomes e Marcelo Callado - e vem gravando desde então acompanhado por esse ‘power trio’ roqueiro (baixo-guitarra-bateria). ‘Cê’ trazia uma estética crua, urgente, nervos expostos. Com letras desbocadas e às vezes deslocadas. A fórmula se repete em ‘Zii e Zie’ - por cima das guitarras (mais uma vez) sujas e quase sempre estridentes, as letras falam de bundas, de lula, de guantanamo, de osama bin laden, de condoleeza, de tesão, da lapa carioca, de drogas, ‘de um tudo’.
No decorrer do ano passado, Caetano ‘testou’ praticamente todas as músicas que aparecem agora no novo disco, durante a temporada de shows ‘Obra em Progresso’, no Rio. Ao mesmo tempo, manteve – e ainda mantém - um blog de mesmo nome, onde exercitou sua conhecida verborragia mas, acima disso, desenvolveu inesperado e frutífero diálogo com seu público. Inclusive o arranjo escolhido para uma das faixas do novo CD – “Incompatibilidade de Gênios”, de João Bosco e Aldir Blanc, em belíssima regravação – foi decidido por meio de votação dos visitantes do blog. É sem dúvida muito interessante essa disponibilidade, por parte de um consagrado e histórico artista, para compartilhar com o público uma ‘obra em progresso’ e ir inclusive adaptando essa obra a partir da resposta desse público.

E apesar disso tudo, nos últimos tempos, Caetano tem andado meio sumido da mídia (principalmente, da mídia paulistana). Não mais: a partir dessa semana, praticamente todos os veículos da ‘grande imprensa’ trouxeram, estão trazendo ou trarão, entrevistas com Caetano e resenhas do disco por uma multidão de (pseudo) críticos. Está aberta, mais uma vez, a temporada de caça – e também de babação – ao compositor baiano. Da minha parte, como já abandonei há tempos a função de crítico musical ligado à urgência dos veículos diários, posso me dar ao luxo de dizer que, depois de ouvir “Ziie Zie” apenas duas vezes, ainda não cheguei a uma conclusão segura: a negativa seria de que é uma continuação pouco inspirada do anterior; a positiva, de que é um aprofundamento, um aprimoramento inspirado do ‘Cê’.
De qualquer forma, taí de novo o Caetano. E é muito bom saber que a gente ainda pode contar com um artista como esse: genial, polemista, irritante, egocêntrico, melodista inspiradíssimo, inovador, cagador de regras, dono de ‘várias verdades’, camaleônico, ultrapassado e à frente de seu tempo. Ou não.






