
A capa da Folha Ilustrada de hoje traz interessante matéria sobre ‘Ninguém sabe o duro que dei’, documentário de Cláudio Manoel (do Casseta & Planeta) sobre Wilson Simonal. Pra quem não sabe ou não se lembra, no final dos 60/comecinho da década de 70, Simonal era um artista de enorme sucesso – como bem coloca a matéria, sua popularidade só era maior que a de Roberto Carlos e o único negro mais famoso do que ele, no Brasil, era Pelé. Mas em 71, Simonal desconfiou que seu contador, Raphael Viviani, estava lhe passando a perna e teve a infeliz idéia de chamar uns ‘amigos’ pra dar um susto no cara. Os tais amigos, agentes do DOPS, deram tremenda surra no sujeito. A mulher do contador deu queixa, um dos agentes falou que Simonal era informante da ditadura e pronto: estava armado o cenário para a desgraça de Simonal. Embora jamais tenha sido comprovada a acusação de ‘dedurismo', por muito tempo seu nome foi como um palavrão evitado por todos e relegado a um estranho e mal explicado ostracismo - nunca totalmente entendido e/ou esclarecido. Banido pela classe artística e pela mídia, Simonal jamais se recuperou do exílio forçado; morreu há oito anos, carregado de mágoas e angústias.
O que parece claro é que o coitado do Simonal recebeu uma injusta ‘condenação’ moral e ideológica. O que importa, agora, é lembrar que ele era um cantor excepcional, dos melhores que o país já teve: afinação, dicção perfeita, balanço incomparável e versatilidade para flutuar pelo jazz, pelo samba e pelo soul em gravações antológicas como ‘Tributo a Martin Luther King’ e ‘Sá Marina’. No auge do sucesso, Simonal circulava pelo Rio e por São Paulo com roupas extravagantes, dirigindo carrões ao lado de loiras vistosas; na televisão, era o arauto de algo que foi batizado (ou batizou?) de ‘pilantragem’, que seria uma ‘releitura’ da velha malandragem carioca. Evidente que a postura ousada daquele negão incomodava muita gente, que parecia apenas esperar pela primeira oportunidade pra ‘ferrar’ com ele. Infelizmente, Wilson Simonal deu a munição perfeita para essas pessoas. E é lamentável que praticamente toda a ‘intelligentsia’ da época tenha aderido, sem questionar, a essa cruel condenação de um grande artista.