
Ang Lee, que já havia ganho o Leão de Ouro no Festival de Veneza com 'Brokeback Mountain', repetiu o feito no ano passado com 'Desejo e Perigo'.
Talvez por isso e levando em conta o passado do diretor, a crítica nacional derramou-se em elogios ao filme.
Mas pra mim, passar quase três horas numa sala de cinema assistindo à saga da jovem ativista na China invadida pelos japoneses em 1942, que se infiltra no dia-a-dia de um traidor colaboracionista para tentar assassiná-lo, foi algo próximo de... uma tortura chinesa.
OK, a direção de arte dá um show, a reconstituição de época é primorosa, e o ator Tony Leung arrasa na interpretação do frio e cruel Mr.Yee.
Mas é só.
O filme parece interminável, a estreante Wei Tang não segura a responsa de protagonista e o roteiro acaba se revelando débil e inverossímil.
Mas há as cenas de sexo... sem dúvida, muito bem interpretadas e captadas com competência e bom gosto. E é só nesses momentos que o filme se afasta do incômodo padrão 'cinemão de Hollywood', que força a mão no melodrama arrastado e convencional.
É evidente que aquelas cenas de sexo - que em certo momento, parecem até pretender se transformar em um manual de iniciação do Kamasutra - jamais seriam feitas nos EUA, por um diretor norte-americano. Tais cenas, aliás, restringiram a exibição de 'Desejo e Perigo' nos EUA, para salas com forte restrição a menores de 21 anos. E na China, vejam só, o filme foi exibido com nada menos que 30 minutos de cortes em seus 157 originais. Além disso, Wei Tang foi banida do país!
Mas no geral, 'Desejo e Perigo' decepciona. Não dá nem pra comparar, por exemplo, com algumas produções anteriores com tramas semelhantes, como os excepcionais 'Julia' (de Fred Zinnemann, 1977, com Jane Fonda e Vanessa Redgrave), 'O Casamento de Maria Braun'(de Rainer Werner Fassbinder, 1979, com Hanna Schygulla) e 'Mephisto'(de István Szabó, 1981, com Klaus Maria Brandauer).
PS: ao contrário do que parece, a Sala Aleijadinho do HSBC Belas Artes, não homenageia o famoso artista mineiro. É com certeza, uma cruel ironia com o estado em que saem os pobres coitados que se aventuram a ficar três horas de castigo tentando enxergar uma projeção sofrível em uma tela pequena, em um ambiente que não tem a inclinação necessária para que todos vejam o filme sem forçar pescoços e costas. Ufa...


