sexta-feira, 18 de julho de 2008

Uma grande resposta



Ter um negro na presidência dos EUA será um avanço espetacular. Obama Barack, agora candidato oficial, já adotou um discurso mais conservador e à direita, certamente no intuito de ganhar a confiança do eleitor médio norte-americano - aquele ignorante, hipócrita, moralista e religioso da pior espécie. Política tem esse lado 'merda' mesmo... Continuo torcendo pela vitória dele; não só porque é evidente que até o urso polar do zoo de Washington seria melhor presidente do que o atual ocupante da Casa Branca, mas principalmente por aquilo que Obama pode representar em termos de avanços em várias áreas, muito além da grave e importante questão racial. Mas ele tem pisado na bola - isso é verdade. Em recente - e rara - declaração sobre o Brasil, disse que 'a Amazônia é muito importante para que seja só dos brasileiros'. Sobre este tema, a Mara, do blog http://levesolto.blogspot.com/ me enviou o excelente texto abaixo, transcrição de uma resposta do ex-governador do DF, ex-ministro da educação e atual senador Cristóvam Buarque, à uma questão feita por um jovem americano sobre a internacionalização da Amazônia. Pedia que ele respondesse como 'humanista' e não como 'brasileiro'. Isso aconteceu em Nova York, em setembro de 2000, durante encontro do State of the World Forum. Mas bem poderia ter sido agora. Vejam só:

"De fato, como brasileiro, eu simplesmente falaria contra a internacionalização da Amazônia. Por mais que nossos governos não tenham o devido cuidado com esse patrimônio, ele é nosso. Como humanista, sentindo o risco da degradação ambiental que sofre a Amazônia, posso imaginar a sua internacionalização, como também de tudo o mais que tem importância para a humanidade.

Se a Amazônia, sob uma ética humanista, deve ser internacionalizada, internacionalizemos também as reservas de petróleo do mundo inteiro. O petróleo é tão importante para o bem-estar da humanidade quanto a Amazônia para o nosso futuro. Apesar disso, os donos das reservas sentem-se no direito de aumentar ou diminuir a extração de petróleo e subir ou não o seu preço.

Da mesma forma, o capital financeiro dos países ricos deveria ser internacionalizado. Se a Amazônia é uma reserva para todos os seres humanos, ela não pode ser queimada ela vontade de um dono, ou de um país. Queimar a Amazônia é tão grave quanto o desemprego provocado pelas decisões arbitrárias dos especuladores globais. Não podemos deixar que as reservas financeiras sirvam para queimar países inteiros na volúpia da especulação. Antes mesmo da Amazônia, eu gostaria de ver a internacionalização de todos os grandes museus do mundo. O Louvre não deve pertencer apenas à França. Cada museu do mundo é guardião das mais belas peças produzidas pelo gênio humano. Não se pode deixar esse patrimônio cultural, como o patrimônio natural Amazônico, seja manipulado e instruído pelo gosto de um proprietário ou de um país. Não faz muito, um milionário japonês, decidiu enterrar com ele, um quadro de um grande mestre. Antes disso, aquele quadro deveria ter sido internacionalizado.

Durante este encontro, as Nações Unidas estão realizando o Fórum do Milênio, mas alguns presidentes de países tiveram dificuldades em comparecer por constrangimentos na fronteira dos EUA. Por isso, eu acho que Nova York, como sede das Nações Unidas, deve ser internacionalizada. Pelo menos Manhattan deveria pertencer a toda a humanidade. Assim como Paris, Veneza, Roma, Londres, Rio de Janeiro, Brasília, Recife, cada cidade, com sua beleza específica, sua historia do mundo,deveria pertencer ao mundo inteiro. Se os EUA querem internacionalizar a Amazônia, pelo risco de deixá-la nas mãos de brasileiros, internacionalizemos todos os arsenais nucleares dos EUA. Até porque, eles já demonstraram que são capazes de usar essas armas, provocando uma destruição milhares de vezes maiores, do que as lamentáveis queimadas feitas nas florestas do Brasil.

Defendo a idéia de internacionalizar as reservas florestais do mundo, em troca da dívida. Comecemos usando essa dívida, para garantir que cada criança do Mundo tenha possibilidade de COMER e de ir à escola. Internacionalizemos as crianças tratando-as, todas elas, não importando o país onde nasceram, como um patrimônio que merece cuidados do mundo inteiro.

Como humanista, aceito defender a internacionalização do mundo. Mas, enquanto o mundo me tratar como brasileiro, lutarei para que a Amazônia seja nossa. E só nossa!"

23 comentários:

Patty Diphusa disse...

Ótima resposta. Enquanto nada disso acontecer e depois de terem destruído tudo de vcs, nos deixem em paz com nossa Amazônia.

Mas que o país precisa ter um projeto bem legal para ela, isso precisa mesmo. E é bom fazermos isso logo.

Exato um ano depois dessa declaração em NY explodiram tudo por lá.

bjs

anna disse...

maravilhosa resposta.

bem que poderia chegar aos ouvidinho do moço lá do norte.

leve&solto disse...

Ei, quanta honra aproveitar um e-mailzinho meu..rs

Excelente o post!!!

bjs

Mara

Neil Son disse...

na verdade, queridas comentaristas (patty, anna e mara), a gringolândia também não tem idéia de que hoje vivem na amazônia, cerca de 30 milhões de pessoas. como garantir a preservação com um desenvolvimento sustentável e ainda, a sobrevivência digna dessas pessoas?

GUGA ALAYON disse...

Oras, criando um grande Parque temático, tipo mistura de Jurassic Park com Beto Carreiro World.

GUGA ALAYON disse...

Aliás, ótima resposta do Cristóvam

leila disse...

Márcio, eu não vi essa declaração do Obama sobre a Amazônia, você teria o link? O que eu vi foi o Obama elogiar o Brasil pelo uso do álcool como combustível...

peri s.c. disse...

Continuamos a perder o bonde da história. Nunca tivemos e não temos discussão, propostas e implementações efetivas de políticas de preservação e desenvolvimento sustentável para a Amazônia. E para o Pantanal ( onde em 20 anos os peixes acabaram ). Os interesses econômicos, nacionais e internacionais, que espreitam essas regiões são magníficos. E assim esse belo discurso do Cristóvão dilui-se no vento.

Eduardo P.L. disse...

Ótimo post!
Concordo em genero, numero e DEGRAU!


Bom domingo!

Neil Son disse...

leila: o obama falou essa bobagem em um discurso que fez em miami, dia 23 de maio. um video com a integra desse discurso pode ser visto em http://www.hearthevoices.com/j1/Obama523.html

Neil Son disse...

não acho que o discurso se dilui no vento, peri. tanto não se dilui que aqui estamos nós, oito anos depois, falando sobre ele.

Neil Son disse...

valeu, eduardo!

peri s.c. disse...

Neil, numas.
Sempre acho que o fundamental, como esse discurso, só é notado e anotado por poucos, aqueles que já sabem das coisas. Espero sinceramente estar errado.

Neil Son disse...

trecho final de artigo da marina silva na folha de hoje, peri: "o ministro minc está dando continuidade às medidas tomadas nos últimos anos pelo governo e criando outras igualmente importantes. o que precisamos fazer é cuidar para não cair na armadilha de falsas polêmicas e na tentação de dizer o que parte da sociedade quer ouvir, pois isso pode prejudicar nosso objetivo comum: o aumento da agilidade sem a perda da qualidade".

peri s.c. disse...

Neil
Tomara.Sei que não é fácil, por melhores e cheias de bom senso que sejam as intenções, as pressões são muito fortes para atender interesses localizados.

Varela disse...

Na verdade este discurso foi feito no início de setembro de 2001. Uma semana antes de... haaa... todo mundo já sabe. Por isso ele foi publicado somente dois anos depois, quando o povo conseguiu olhar um pouco para dentro.

Neil Son disse...

é mesmo varela? peguei a informação no site do próprio cristovam buarque. mas posso ter me confundido, é verdade... obrigado pela visita e pelo esclarecimento!

Dona Sra. Urtigão disse...

Amazonia ? Florestania, conceito de desenvolvimento e sustentabilidade.(cidadania para a floresta)

Neil Son disse...

'florestania' seria o casamento ideal entre natureza vegetal e humana, sra. urtigão?

Dona Sra. Urtigão disse...

Nas palavras de Toinho Alves, um dos criadores do termo e do conceito:
"Mas o que é, afinal, essa tal Florestania? “A cidadania na floresta” -costuma ser a resposta simples e apressada. É isso, sim, mas é algo mais. Além de um conjunto de relações sociais, direitos, deveres, leis e conquistas, a florestania é um sentimento que pode ser expresso da seguinte forma: a floresta não nos pertence, nós é que pertencemos a ela. Esse sentimento nos induz a estabelecer não apenas um novo pacto social, mas um novo pacto natural baseado no equilíbrio de nossas ações e relações no ambiente em que vivemos. É um sentimento orientador para nossas escolhas econômicas, políticas e sociais –e por isso inclui a cidadania- mas orienta também nossas escolhas ambientais e culturais –e por isso a transcende. "
Abraços

Neil Son disse...

por essa definição, cara sra urtigão, concluo que nossos ancestrais indígenas, sem ter nem noção dessa teoria, já faziam exatamente isso, na prática.

Dona Sra. Urtigão disse...

A novidade é a adaptação do que os povos tradicionais sabiam, às nossas vivências de "civilizados", incluso o que pensamos ser necessidades essenciais.Será um novo modelo de sobrevivencia da humanidade. E note, digo será e não seria, pois tenho que acreditar que é possivel. Embora tenha consciencia do tamanho da estupidez do nosso modelo de desenvolvimento, ainda resta alguma esperança no potencial da razão humana.

Neil Son disse...

estás coberta de razão, sra. urtigão...