quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Pra onde vai o Carnaval?




E lá se foi mais um Carnaval... a cada um que passa, mais crescem em mim as dúvidas: para onde vai, afinal de contas, essa festa que nasceu do povo, foi a princípio reprimida e depois 'assumida' pelo sistemão? É possível equilibrar a manifestação sincera de toda aquela gente que passa o ano todo preparando o desfile de sua escola, com a necessidade de se fazer um espetáculo que, na verdade, acaba se resumindo a um programa de TV? E que programinha de TV mais chato, hein? Horas e horas daquele lenga-lenga, com uma impressionante galeria de chavões e idiotices repetidas 'ad nauseum' pelos locutores e comentaristas... E a ganância dos patrocinadores? E a estupidez galopante dos camarotes VIP?

Bem, no Rio, sei que aconteceu nos últimos anos um renascimento dos blocos de rua, da brincadeira livre e democrática, o que é, pra quem gosta, uma ótima notícia; mas em Salvador, a própria prefeitura já reconheceu que a festa precisa ter um 'novo formato'. Afinal, desde que inventaram o circuito 'chique' da orla (onde pu(lu)lam Ivetes e Danielas), parece que o 'verdadeiro carnaval baiano', dos blocos e ijexás, ficou restrito ao centro velho, longe dos holofotes e dos turistas. E Recife/Olinda? Também parece haver, finalmente, sucumbido à mercantilização desenfreada e à guerra das fabricantes de cerveja.

Quanto a mim, confesso que, a cada vez que vejo na TV, de relance, uma imagem daquela impressionante multidão se comprimindo pelas ruas de Recife ou de Salvador, acho interessante (por cerca de 30 segundos) até, logo em seguida, pensar: 'que bom que estou aqui e essa gente toda está lá...'
Pra terminar essa reflexão meio sem sentido e sem pé nem cabeça (será o tal do 'espírito momesco'??), destaco uma frase da página de editoriais da Folha de hoje:

“A ‘cultura das celebridades’, essa ficção, colonizou o Carnaval. As escolas de samba passaram a funcionar como agências de ‘rating’ de modelos e aspirantes. Fazem a triagem que alimenta o mercado sexista e vulgar das revistas, novelas e filhos da elite pelo resto do ano”. – Fernando Barros e Silva.

13 comentários:

anna disse...

me diga: onde foi tirada essa foto?

talvez por não ser do ramo, a impressão sobre a "festa" é que o samba enredo é sempre o mesmo, a nudez é para exibir os novos silicones e o grotesco tapa-sexo. nome feio esse,nénão?

Patty Diphusa disse...

Por isso o melhor lugar para passar o carnaval é São Paulo, que até ainda saindo mais do túmulo para fazer festa.

Bjs

peri s.c. disse...

Esta a grande sacanagem da grande midia golpista , e seus grandes cúmplices, as cias cervejeiras : acabar com o carnaval.Piores que os hunos, por onde passam não nascem mais marchinhas.

Neil Son disse...

bem observado, anna: tapa-sexo é mesmo um nome muito estranho. afinal, aquela minúscula 'fantasia' pode servir pra alguma coisa, mas certamente não 'tapa' o sexo. muito pelo contrário, aliás...

Neil Son disse...

o carnaval em sampaulo foi ótimo, patty. muito cinema e muito 'dolce farniente'... não ouvi um batuque, não senti nem um gostinho do período momesco...

Neil Son disse...

do jeito que caminha, peri, melhor mesmo é acabar com o carnaval. e reinventa-lo, reinaugura-lo como foi em sua origem: marginal, crescendo pelas bordas, espontaneamente. já pensou que maravilha? assim, quem sabe até eu me animaria hehe...

peri s.c. disse...

Neil
Certíssimo. Minha idéia é exatamente essa. E um dia espero te ver sambando.

luisa disse...

acho que hoje em dia tudo está, em sua maioria, à mercê do "sistemão" e da mídia. mas à medida em que nos aproximamos das chamadas comunidades, das minorias que ainda fazem as coisas por paixão percebemos que o que vemos quando estamos longe é simplesmente o superficial. tanto o rio, quanto olinda e salvador, tem o seu lindo carnaval, talvez não cheio de mulheres lindas que por isso mesmo não aparece na tv, mas que continua existindo e é preciso ter vontade de ver e de se entregar. essas cidades tem mais de 50 blocos que saem nos dias de carnaval e que não aparece na tv, mas todos tem nomes maravilhosos, é só pesquisar! cabe a cada um querer fazê-lo, de perto! diga-se de passagem, assim como o futebol.

Neil Son disse...

peri: não sou doente do pé, mas acho que sou ruim da cabeça...

Neil Son disse...

concordo lulu, mas o problema é como equilibrar essa sinceridade, essa paixão das 'comunidades' - e a vontade de ver(dade) -, com a ambição desenfreada dos patrocinadores e as exigências da mídia e da 'indústria das celebridades' (argh!). isso tudo junto tem uma grande possibilidade de matar o carnaval (se já não matou...)

Anônimo disse...

pior é ser vaiada por causa da ivete. maiores explicações, leia no frankamente.

jayme disse...

Fernando de Barros e Silva às vezes acerta.

carol disse...

ótima reflexão, Marcio. meu irmão esteve no rio e, conhecedor dos carnavais brasileiros, disse que é o melhor, justamente por causa dos blocos de rua, quase familiares. show de horror é todo o resto que (não) vemos na TV. e os tais "samba-enredo"? o que é aquilo, hein? aquelas histórias esquisitas, mal e mal se encaixando na melodia, um troço que ninguém consegue decorar, credo. medonhos, todos.
tô fora.
beijos,
carol