quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Elis... Elis... Elis!


Há muito tempo, quando comecei a me interessar por música, Elis Regina estava longe de figurar entre minhas cantoras favoritas. Me parecia exagerada, antipática, arrogante e com repertório ‘careta’ e ‘sério’ demais para o meu gosto na época. Além e acima disso, pouca coisa da música brasileira realmente me interessava – minha atenção estava mais voltada para as várias vertentes do rock feito por Traffic, Yes, Jethro Tull, Crosby Stills, Nash & Young, Lou Reed, Steely Dan, Bob Dylan, Eric Clapton e uma multidão de outros, não menos importantes.
Mas fui trabalhar na Warner Music e pouco tempo depois, Elis foi contratada pela gravadora. Na época, responsável pela divulgação de rádio e TV, me pediram que montasse uma agenda de programas de rádio para a cantora, prestes a lançar seu primeiro disco pela nova casa. Era um pedido surpreendente; afinal, artistas consagrados não dedicavam uma semana inteira a entrevistas ‘in loco’ em emissoras de rádio. Mas me disseram que fazia parte do contrato dela, uma dedicação especial à tarefa de divulgação mais ‘tradicional’, como se classificava, então, aquela verdadeira via crucis. E também me alertaram: “cuidado com ela; a mulher não é fácil!”.
No dia marcado para o início do périplo – uma segunda-feira, 8h30 da manhã, cheguei apreensivo pra encontrar a cantora. E a primeira impressão não foi das melhores: Elis estava de péssimo humor. Mal me apresentei, ela começou a dizer que jamais deveria ter concordado com aquela agenda, que era uma mulher muito ocupada, que morava longe, que tinha acordado às 6 da manhã, que tinha brigado com o marido, que os filhos enchiam o saco, que a empregada era uma imbecil, que o frio a deixava puta da vida, blablablabla...
Engoli em seco e lá fomos nós, no meu Fiat 147.
Surpresa: foi uma semana maravilhosa! Nos demos superbem, conversamos muito, sobre tudo e todos, demos risada a semana toda! Apesar de ser mesmo uma pessoa 'difícil', nunca tive qualquer problema com Elis. Chegamos mesmo a nos tornar amigos, por um breve período, ao ponto de mais de uma vez, tarde da noite, ela me pegar em casa com seu MP Lafer conversível, apenas para conversarmos enquanto ela ia e voltava pela Avenida Paulista de madrugada - até o Paraíso, de volta à Consolação, Paraíso de novo e assim por diante...
Dizia que nos dávamos bem porque éramos ambos de Peixes; por isso eu a entendia, já que ela era os extremos de Peixes, teorizava.
Foi nessa época que assisti pela primeira vez, um show dela: 'Essa Mulher'. Fiquei arrebatado! Repetório impecável, músicos excelentes e aquela baixinha que no palco crescia de forma impressionante.
Depois, viajei por um mês pra fora do Brasil; na volta, sabendo que Elis estrearia naquela noite seu novo show no Canecão, ao invés de descer em São Paulo, fui pro Rio. E assisti a um espetáculo maravilhoso, um verdadeiro 'banho de Brasil', um choque cultural de efeito devastador pra quem voltava de semanas fora do país. O show? 'Saudade do Brasil'.
Elis revelou músicos e compositores; era o parâmetro de artista, de cantora, de mulher, de atitude. A última vez que a vi foi no camarim de Rita Lee, em dezembro de 81 no Pal.das Convenções do Anhembi. Estava radiante, bonita, cheia de planos. Menos de um mês depois, ela se foi. E foi com ela uma parte importante de todos nós e de um Brasil que foi e que poderia ter sido... lindo.

21 comentários:

anna disse...

porque será que vc pensou nela hoje se o dia das musgas é amanhã, se não é aniversário de morte ou vida dela?

de qq maneira valeu.

belo texto, bela história emocionante.

sua e dela, que no seu mau humor me lembrou muito dos meus, onde tudo, absolulamente, tudo é um saco.
espero, que assim como eu, dia seguinte, novo sol, tudo mudasse para ela.

GUGA ALAYON disse...

emocionante é apelido. Dá pra ficar arrepiado. Ótimo texto!
abç

Neil Son disse...

elis era mesmo surpreendente, anna: o tempo todo, tudo era possível. e até depois da morte, pelo visto... afinal, não há mesmo explicação pra ela ter 'aparecido' por aqui, agora, sem uma data específica, sem eu ter sequer ouvido uma música dela ultimamente ou ter lido algo a seu respeito.

Neil Son disse...

menos, guga, menos... anyway, thanx!!

Marina Morena disse...

aaaaah! que bacana vc falando dela!
A Elis é a minha musa de todas as estações. Sempre da "Nova Estação".
Adorei. Emocionante, sim!
Bjs

Ricardo Soares disse...

Muito bacana o teu depoimento. Aliás acho que você deveria falar mais dessas memórias da época em que você trabalhava em gravadoras e tratava com a mesma deferência a mim enquanto eu trabalhava numa revista pra caminhoneiro ou num jornal importante. Essas memórias, nossos tempos idos e vividos ,às vezes são memórias do tempo da delicadeza perdida né não ?? grande abraço,grande post.

peri s.c. disse...

Neil
Como escreveu o Ricardo, você deveria contar mais desse período.

Belo texto.
Elis foi (é) e-n-o-r-m-e.

Neil Son disse...

ricardo e peri, vcs têm razão, mas muitas vezes fico meio 'assim' de escrever essas coisas... por um lado, pode parecer que estou querendo me vangloriar de certos contatos e/ou inventando histórias; por outro, tenho uma preocupação com as consequências da exposição de certos detalhes da vida dos famosos...

Anônimo disse...

adoro essas histórias! e quem as tem deve se vangloriar mesmo (ainda mais sendo meu pai, é motivo de orgulho!). quem me dera, passeios com a elis!
e a mulher é mesmo incrível, arrepiante. como pode, alguém que morreu antes deu nascer, fazer tanto sucesso até hoje? pelo menos entre os meus amigos, ela é unanimidade.. poderosa na vida e depois dela tbm.
aliás, diga-se de passagem, meu ídolos musicais, quase todos já morreram ou tem prá lá de 50 e muitos, 60 anos..
é sempre bom relembrar elis, mesmo que não tenha motivo algum!
beijos,
Luisa.

Neil Son disse...

e a ironia, lulu, é lembrar que foi a elis que eternizou aqueles versos: "nossos idolos ainda são os mesmos, e as aparencias não enganam não. você diz que depois deles, não apareceu mais ninguém"

jayme disse...

Elis teve a imensa capacidade de se reinventar e também de entender -- como todos os grandes -- que menos é mais, mas que é preciso tempo para chegar a esse menos. Creio que a grande mudança de Elis veio com "Falso Brilhante". Foi quando ela abandonou de vez o jeitão "Elis-cóptero" e subiu os degraus que a levariam a ser uma cantora de padrão internacional, comparável a qualquer das grandes americanas. Outro marco foi o disco "Elis e Tom", sobre o qual a TV Bandeirantes tem um delicioso making-of. Em tempo: muito bonita a foto que ilustra o (bem-escritíssimo) post. De onde vem?

jayme disse...
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Neil Son disse...

tem razão, jayme: 'falso brilhante' e 'elis & tom' foram marcos na carreira dela; mas antes, houve uma fase de 'transição', com belos momentos... aquele disco 'elis', com capa p&b, por ex, era excelente. e a foto, achei na internet mas não consegui descobrir o autor. só tenho certeza de que foi tirada nos bastidores do show 'saudade do brasil'.

Lilás/Beth disse...

Sortudo!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Anônimo disse...

lindo texto, márcio. poderosa edição de lembranças. são matadores os detalhes pontuais. como as marcas dos carros e o trajeto pela paulista. você já pensou que um dia vai ter que botar no papel um livro de experiências/lembranças/histórias?
abração. guzik

Neil Son disse...

já pensei e até comecei escrever o tal livro, guzik. mas parei no meio, por conta da conversa que tive com um advogado que me aterrorizou com a certeza (segundo ele) da enxurrada de processos que eu teria de enfrentar... isso acabou me bloqueando. abração!

Anônimo disse...

mas um dia vc vai ter que jogar isso nas folhas impressas, márcio. obrigatório. arrume um jeito. crie metáforas. tu tem a observação de mundo e a sagacidade de que a empreitada carece. grandabraço! guzik

Neil Son disse...

valeu a força, guzik! vamos ver...

Patty Diphusa disse...

Há tempos venho falando desse livro que vc precisa escrever. Seu argumento de que irá quebrar pagando os processos judiciais não me convence.

Belo depoimento

bjs

Neil Son disse...

é patty, a pressão tá aumentando. acho que vou retomar...

Anônimo disse...

"ela me pegar em casa com seu MP Lafer conversível" tenho a felicidade de hoje passear com esse Lafer que pertenceu a Elis! Está na minha família desde a década de 80! =)