terça-feira, 2 de outubro de 2007

Esse era o Tim...


Depois de meses de muita conversa, de idas e vindas dos dois lados, finalmente conseguimos: era início da década de 80 e promovemos – eu e o Marcos Vinícius, grande figura – o acordo de paz entre a TV Globo e Tim Maia. Ficou combinado que ele gravaria o clip da música ‘Acenda o Farol’ para o Fantástico (sim, o Fantástico produzia e passava videoclips!). Mas como se tratava do Tim, eu e o Marquinho resolvemos ir pro Rio, no dia da gravação, pra pegar o cara em casa e levá-lo até o local da gravação, de forma a garantir que nada desse errado. Antes de sair de Congonhas, liguei pra ele: ‘Tim, em uma hora a gente passa aí na sua casa pra ir lá pra Globo, certo?’ E ele: ‘Chegaí merrrmão!’ Ao pousar no Stos Dumont, nova ligação: ‘Tim, em 15 minutos a gente ta aí!”. Não havia celular na época.... O Tim morava numa casa no alto de uma daquelas ladeiras que saem do fundão de Copacabana e vão subindo a montanha. Nosso táxi foi até a metade da ladeira, quando o motorista parou e mandou a gente descer: ‘esse carro não agüenta a ladeira; daqui vocês têm que ir a pé’. Fazer o que, né? Aquele calor senegalês e nós lá, subindo ainda uns 500 metros de paralelepípedo. Finalmente, chegamos. Tocamos a campainha. O pesado portão de madeira é aberto por um rapaz que, ante a nossa identificação, vai logo dizendo: ‘O seu Tim disse que vocês podem voltar, porque ele não vai mais’. Ato contínuo, bate o portão na nossa cara. Toquei de novo, lá vem o cara novamente, só que agora irritado: ‘Ele não vai, pô; que pedaço do não vocês não entenderam? Área, Área!!’. Nisso, olho por cima do ombro do sujeito e vejo o Tim lá no fundo, lendo jornal numa espriguiçadeira. Grito: ‘Ô Tim, o que aconteceu? Vamolá que tá tudo armado, a equipe inteira te esperando, pô!’ E ele: ‘Eu não vou mais e pronto. Chega desse papo’! Continuamos tentando, aos berros, argumentar com ele mas eis que de repente aquele vozeirão inesquecível ordena pro assistente no portão: ‘SOLTA OS CACHORROS!!!’ Eu e o Marquinho tivemos um momento de parvonice e atabalhoamento, que durou só o tempo do sujeito escancarar o portão e a gente ver dois enfurecidos dobbermans em desabalada carreira, vindo lá do fundo do jardim. Descemos aquela ladeira correndo, com os bichos nos nossos calcanhares, até pularmos o muro de uma casa e invadirmos a cozinha onde uma pacata senhora escolhia grãos de feijão... Depois desse episódio, Tim só retornaria à Globo em um dos programas da série ‘Chico & Caetano’. Os dois batalharam para que a Globo o aceitasse no programa, depois batalharam para que o Tim aceitasse o convite. Deu tudo certo, afinal: na passagem de som, à tarde, Tim e a banda Vitória Régia arrasaram, apesar das costumeiras reclamações: ‘Mais retorno, mais voz, mais baixo, mais TUDO!!’. Saíram todos às 7 da noite, todo mundo feliz, já antevendo o grande programa que seria gravado dali a duas horas. Mas a noite chegou, a gravação rolou, a noite acabou e o Tim não apareceu...

19 comentários:

Marcia disse...

Adorei a parte de vocês dois rolando morro abaixo hahahahaha

jayme disse...

É, Neil, sem falar no Calabouço, Flamengo, Boatafogo, Urca, Praia Vermelha...
Essa dos dobermans merece ir para um livro de memórias. É sensacional.

leila disse...

Muito boa mesmo a historia, Marcio. O cara era muito bom, mas profissionalismo passou longe... Soltar cachorro nos funcionarios da gravadora dele, e' brabo.

Eu ate' que tive sorte na minha unica tentativa de ver o Tim Maia. Era um show na Praia do Arpoador (Parque dos Patins) no fim dos anos 80, de graca, e ele APARECEU! Foi super legal, ele nao reclamou nada e tocou todos os sucessos.

Neil Son disse...

é marcia, mas te conto que no momento da 'ocorrência', a coisa não teve graça nenhuma.

Neil Son disse...

'goiabada para sobremeeeesaa'!!! pois é jayme: como artista, o tim era mesmo o máximo!

Neil Son disse...

é verdade, leila, esse era o tim. e vc me dá oportunidade pra dizer que, apesar dessa história que contei, sempre achei e continuo achando o tim um puta compositor, com uma penca de ótimas músicas! E que cantor, maigódi...

anna disse...

de artista e louco todo mundo tem um pouco. só que a fera aí caiu no pote, ou então entrou duas vezes na fila de distribuição desses atributos.

e, son, ainda bem que era jovenzinho. fosse hoje, 2 a zero prôs cãezinhos.

peri s.c. disse...

Neil
Esta casa que vocês visitaram é aquela que ele construiu no terreno errado ? Você sabe dessa história ?

Neil Son disse...

ao contrário, anna: aquela época era de excessos em todos os sentidos - por isso, os cãezinhos quase me pegaram. hoje seria diferente, e pra melhor: tô praticamente na dieta do waldick!

Neil Son disse...

peri: são tantas as histórias do tim... mas essa da casa, hummmm... perrrdi!

peri s.c. disse...

Neil
Ele comprou um terreno, numa daquelas áreas altas do rio, meio que no meio da mata.
Levou arquiteto e construtor : " O terreno é esse".
Terminada a obra, um dia tocam a campaínha, ele atende e o cara diz :" você construiu no meu terreno"

Prá encurtar a história, ele errou de lote e construiu no terreno do vizinho, que depois de ameaça de processo, fez com que ele comprasse o terreno por um valor muito mais alto.

Anônimo disse...

Marcio
eu AMO essa história.
Beijo
Rifka

Jô Elias disse...

finalmente consigo comentar (agora o formulário do blogger não aparece mais em finlandês, como antes, e eu não tinha noção de onde tinha que escrever o que ou onde estava a tecla publicar)... mas tenho lido o blog, está ótemo. a história é hilária. beijocas

GUGA ALAYON disse...

Esse era Ele!
O Rei.
abç

Neil Son disse...

peri: um dos problemas do tim era que o lugar onde ele morasse, teria que comportar, obrigatoriamente, uma espécie de 'bunker multiuso', que ele chamava de 'casa do chocolate'. Lembra do 'não adianta vir com guaraná pra mim, é chocolate o que que quero beber'?? Pois é...

Neil Son disse...

rifka: qualqeur hora conto alguma do hermeto, em sua homenagem, tá?

Neil Son disse...

pois é, guga... o rei do chocolate e dos cornos, segundo o próprio.

Stephanie Kohn disse...

Hahahaha, nunca imaginei que vc tivesse passado por essa!!!

Adorei o causo!!!

Beijos

Anônimo disse...

Resumindo, tim maia era um bestalhado, tai morreu liso, a arrogância dele não valeu de nada, se queimou, fez sucesso depois que morreu....
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk