quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

João, primeiro e único


Artigo sobre show de João Gilberto no antigo Palace (SP), somente para convidados da Brahma.
De um tempo em que ‘bocada’ era ‘tititi’, ‘celebridade’ era ‘notável’ e a Brahma era brasileira, hehehe...
Funciona também, espero eu, como argumento forte contra aqueles que acham JG um chato que só reclama e que canta, enfadonhamente e ad nauseum, as mesmas e mesmas músicas.

Originalmente publicado pelo Jornal da Tarde em 05 de abril de 1991.


Poucos seriam capazes de prever: a platéia de privilegiados que lotava o Palace na noite de quarta-feira, participando com entusiasmo de um tititi sem precedentes na história da casa, permaneceu no mais absoluto silêncio durante os exatos sessenta minutos em que João Gilberto esteve no palco. Após duas horas de espera, ruidosamente preenchidas com vários encontros entre notáveis e muita bebida, o público foi avisado de que não poderia fumar durante a apresentação do cantor e as muitas câmeras fotográficas e de televisão só poderiam entrar em ação depois de meia hora de show. A estrela da noite soube retribuir o respeito do público: o que se assistiu a seguir foi um raro espetáculo de técnica e preciosismo, proporcionado por um dos melhores músicos do mundo, com toda a seriedade e obstinação que essa condição certamente exige.
Há muito tempo João Gilberto já demonstrou seu desprezo pelo rótulo ‘bossa nova’; ele se considera um sambista. Não por acaso, o repertório do show do Palace incluiu dezesseis sambas tradicionais, interpretados no consagrado estilo que se convencionou chamar de bossa nova mas que é, muito mais, uma forma de cantar e tocar violão criada por João Gilberto, que a cada dia busca torná-la mais próxima da perfeição. É cristalino: ao contrário do que apregoam os idiotas da obviedade, a arte de João está em constante evolução; e cada apresentação sua pode ser apreciada como uma verdadeira aula de música brasileira. Depois de um show de João Gilberto, lembramos que o Brasil, ao menos musicalmente, é uma verdadeira maravilha. Isso ficou claro a partir da primeira música do show, ‘Pra que discutir com madame’, samba genial de Janet de Almeida e Haroldo Barbosa. Janet, irmão de Joel (aquele do chapéu de palha), morreu jovem e desconhecido; seu nome não consta de nenhuma enciclopédia de música brasileira. Agora, encontra seu lugar na história pela sensibilidade de João Gilberto, que abre seu último disco com outra composição de Janet, ‘Eu sambo mesmo’. Essa música, de emocionante beleza, foi sem dúvida um dos pontos altos do show, que também trouxe outras músicas de ‘João’, o disco: ‘Eu e meu coração’, ‘Palpite infeliz’, ‘Siga’, ‘Rosinha’ e ‘Sampa’, onde a melodia e os versos de Caetano Veloso receberam uma inacreditável e virtuosística divisão rítmica. Aliás, quem já tem o novo disco de João e esteve no Palace, pôde comprovar que a voz e o violão do mestre tornam dispensáveis os arranjos de orquestra que foram escritos para todas essas gravações.
João Gilberto também incluiu no show algumas músicas que se tornaram autênticas pérolas de seu repertório mais recente, como ‘Preconceito’, ‘Adeus América’, ‘Sandália de Prata’ e ‘Curare’; e ainda brindou o público com belíssimas interpretações de ‘Saudosa Maloca’, ‘Aos pés da cruz’, ‘Saudade da Bahia’ e ‘O Pato’, esta, a única da fase consagrada como bossa nova, que constou do roteiro. Todo esse programa de música brasileira de primeira linha foi apresentado no Palace com som perfeito e uma iluminação precisa e criativa na sua simplicidade. E quando João Gilberto deixou o palco, dois telões exibiram o comercial gravado por ele para a Brahma - desde já, a mais requintada interpretação de um jingle jamais feita no Brasil. É certo que o roteiro do show poderia ter mais uma hora, incluindo coisas como ‘Estate’, ‘You do something to me’, ‘Isaura’ e tantas outras. Afinal, quando João Gilberto canta, sempre fica a impressão de que foi pouco; e todo o folclore que existe em torno de sua figura invariavelmente polêmica se torna insignificante diante da impressionante dimensão de sua arte.

20 comentários:

jayme disse...

Historinha de veterano: antes desse show (uns bons anos antes), João se dispôs a fazer uma apresentação em SP depois de décadas sem vir aqui. Seria no Municipal. Casa cheia, claro. Bom, na hora, João deu uma de Tim Seixas (ou de Raul Maia) e atrasou. Mais de uma hora. Pois bem, quando ele resolveu entrar, uma parte minoritária resolveu vaiar -- não o João, mas o atraso. Nesse grupo estava o atual presidente do conselho da TV Cultura, então futuro secretário da cultura de São Paulo, Jorge da Cunha Lima. Resultado: João saiu e demorou mais uma hora na coxia. Os revoltados que ficaram se aquietaram. Depois, quando voltou, não disse uma palavra e cantou lindamente para uma platéia que se comportou com o silêncio digno daquela casa, como se lá estivesse tocando uma Guiomar Novais. Foi aplaudidíssimo no final, já quase duas da manhã. Coisas de João. Curiosamente, havia tocado meses antes no Festival das Águas Claras. para uma platéia alegre, barulhenta e nada solene, ao ar livre. Consta que uma certa dose de uma certa erva criou a sintonia entre ele e o público. Mais coisas de João.

peri s.c. disse...

Outra historinha : assisti o show dele na inauguração do Tom Brasil. Trabalhamos no projeto e na visita final ainda à obra, alguém lá do Tom perguntou se queríamos ver o camarim do João. Claro! A porta foi aberta, mas não podíamos passar por ela, só ver de longe seu violão. Todo cuidado era pouco.
O show foi lindo. Ele nem se incomodou com a platéia ,aos poucos, " tateando" sua reação e num crescendo respeitoso, cantando junto com ele Sampa. Esticou a música um tempão, foi um grande barato.

Tinha um colega de faculdade, épocas menos midiáticas,não era essa enxurrada de espetáculos que temos hoje, que assistia todo e qualquer show do João, no Brasil. em qualquer canto. Se fosse no Amapá, ia, pegava trem, avião, jardineira, barco, e lá ia ele.

Uma detalhe que admiro nele são estas preciosidades esquecidas que ele grava e que sempre buscou no fundo dos baús.

GUGA ALAYON disse...

Jaymão, talvez tenha sido um maço de erva-doce que ele usou para tampar os ouvidos naquela balbúrdia de águas claras. ahaha

Ótima reportagem, marcio!

Neil Son disse...

hehehe, parece que todos têm uma historinha do joão pra contar... também tenho algumas, que posso ir contando aos poucos aqui no blog. aguardem!

Neil Son disse...

jayme: estive nesses dois shows que você mencionou! e é tudo verdade!

Neil Son disse...

peri: neste show de inauguração do tom brasil eu não estive, mas estive na histórica 'noite da vaia', inauguração do credicard hall com show de joão & caetano. absurdamente, a casa foi inaugurada sem o forro do teto, sem nenhum tratamento acústico, um horror! como o joão não parava de reclamar da reverberação infinita, parte do público começou a vaiar e o joão se saiu com a clássica 'vaia de bêbado não vale'. ele tinha toda a razão...

Neil Son disse...

guga: em águas claras, joão entrou no palco às 5 e meia da manhã e saiu com o sol já pleno. cantou maravilhosamente em meio à loucura geral (dele, inclusive). foi um momento mágico, inesquecível da nossa versão cabocla do festival de woodstock, perto de bauru e pra rimar, regado a cogumelo de zebu.

carol disse...

delícia de artigo. Digno do João.

Neil Son disse...

valeu, carol! o joão, com seus ternos escuros, óculos, aquela carequinha e a voz sempre baixa, parece um padre. mas só parece, ainda bem...

parangolé disse...

sabe tudo esse baiano maconheiro! merece o respeito que exige.
cadê a gata de sexta?

Neil Son disse...

peraí paranga! ainda nem acordei direito! mas hj tem musa sim. later, later....

Lord Broken Pottery disse...

Márcio,
Bom vir aqui, sinto-me em casa entre todos esses dinossauros: Jayme, Peri, Guga... Também, sou competitivo, tenho uma historinha pra contar de um show do João Gilberto. Foi há séculos atrás, já não me lembro quando. Uma apresentação que seria no Tuca com a Nara Leão. Demorou, demorou, muito tempo depois do horário marcado para o show começar, sobe a Narinha (que joelhos!) no palco, visivelmente sem graça (como se isso fosse possível) e puta da vida. Informou que o João (chovia pra caralho) não conseguia afinar o violão devido à humidade, e que tinha mandado avisar que não faria o show. Fez uma pausa, o maior silêncio no teatro, e continuou, agora mais simpática do que nunca. Disse então que de qualquer forma faria o show, sozinha, quem quisesse poderia sair e pegar o dinheiro de volta na bilheteria. Todo mundo ficou e foi dos melhores shows que já assisti. Um show do João Gilberto com a Nara Leão, sem o João Gilberto. Bons tempos aqueles...
PS: Você já está devidamente linkado.
Grande abraço

Eduardo P.L. disse...

Márcio,

finalmente consegui. Apanhei muito, não sei por que? Mas agora deu certo.
Tenho uma HISTÓRINHA, mas não vou competir com esses feras, como disse o Lord, incluso!

Gostei muito do seu blog, e vou linkar já, no Varal.

Forte abraço.

Neil Son disse...

é lord, acho que o joão ganha em histórias até mesmo do tim maia, hehe... thanks a lot pela visita. volte sempre!!

Neil Son disse...

olá eduardo! vou te linkar aqui também. e na dúvida sobre linkar o varal ou o drops, linkarei logo os dois! gde abraço!

anna disse...

nunca vi ele ao vivo.

mais uma falha de caráter.

luisa disse...

menos do que eu gostaria, mas felizmente vi um show do joão gilberto, sozinho no meio do palcão do antigo palace, que agora não sei mais, mas acho que é o citibank music hall. no fim do show, um pedaço da cortina abriu e quem tocava piano era o caçulinha, que surpresa! agradeço aos meus pais pela quantidade e qualidade dos shows que eu já vi até hoje!

Neil Son disse...

anna: apesar de passar dias semanas meses entocado em seu apart (assistindo tv sem som, tocando violão e fazendo uso da 'coisa') e não abrir a porta nem pra filha, dizem que o JG ainda tá vivo. e enqto isso for verdade, a sua chance de ver um show dele, permanece.

Neil Son disse...

é mesmo luisa... essa é mais uma pro folclore do joão... pq cazzo ele resolveu deixar o caçulinha, o show inteiro, escondido atrás da cortina? e pq resolveu mostra-lo no fim? e pq era o caçulinha acompanhando o JG?? nunca consegui responder a essas perguntas...

GUGA ALAYON disse...

lord, adorei o "humidade" para o João. umildade tb é a cara dele. ahahaha

anna, falha de caráter dele, diga-se de passagem.

marcio, vai ver que não era o João que vcs viram, mas o Tom.
O Cavalcante. ahahaha

abraços