quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

O Maestro Soberano


Me antecipo aqui ao dia 25 de janeiro próximo, quando Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim completaria 81 anos de idade, para homenageá-lo. Não tive, infelizmente, a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente. No ano fatídico de sua morte, Tom havia lançado o excepcional ‘Antonio Brasileiro’ e eu, então jornalista, há semanas batalhava a marcação de uma entrevista exclusiva com ele, através de sua assessora de imprensa Gilda Mattoso. Certo dia, Gilda me liga dizendo que o maestro havia reservado três horas de sua agenda para a entrevista, que teria que ser impreterivelmente na tarde seguinte, em sua casa no Rio, visto que ele viajaria na noite seguinte para os EUA para se submeter à cirurgia que acabaria por matá-lo. Desgraçadamente, não consegui desmarcar alguns compromissos DE MERDA, marcados anteriormente, e não pude entrevista-lo; em meu lugar, foi o colega Walter de Silva. A entrevista foi publicada na finada Revista Qualis, na mesma edição em que publiquei o texto abaixo, que tentava ‘dar uma geral’ na vida e obra deste grande brasileiro. O texto é longo, mas modéstia ‘às favas’, vale a pena. Espero que gostem.


Não se sabe se foi o ar marinho, a descendência do pai intelectual, o ambiente musical que quase sempre o envolveu, a necessidade de, muito cedo, pagar o aluguel no final do mês, ou ainda, aquela velha história de estar na hora certa no lugar certo (o que, no caso dele, significariam várias horas e lugares certos...). Mas, muito provavelmente, foi tudo isso junto - somado, é claro, a um enorme talento - que fez com que Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim desenvolvesse uma carreira e uma obra que deixam gravado seu nome na seleta galeria dos maiores compositores do nosso século. E isso sem favor nenhum, sem arroubos nacionalistas e muito menos a abominável glorificação “post-mortem”. Tom Jobim sempre foi grande. E sempre será.

Ao olharmos para trás, causa até espanto o fato do profícuo compositor de mais de 400 músicas e incontáveis horas de estúdios, palcos e partituras, ter gravado poucos discos que podem ser considerados realmente “dele”, onde canta, toca e assina os arranjos. Mas a influência e importância de Tom Jobim no cenário musical é, com certeza, infinita. No Brasil e no exterior. Caetano Veloso, Michel Legrand, João Gilberto, Sadao Watanabe, Hermeto Pascoal, Sarah Vaughan, Ryuichi Sakamoto, Quincy Jones, Jan Garbarek, Oscar Peterson, Wes Montgomery, Nelson Riddle, Tony Bennett...é interminável a lista de admiradores confessos da música ao mesmo tempo simples e sofisticada, regional e universal, de Tom Jobim.

Música, naturalmente...
O segredo da arte de Antonio Carlos Jobim talvez esteja no fato de que, para o menino Tom, a música era uma brincadeira a mais, tão importante quanto empinar pipa nas ruas de areia na Ipanema do final dos anos 30 ou pescar camarões nas águas transparentes da Lagoa Rodrigo de Freitas. Ele nasceu na Tijuca, em 25 de janeiro de 1927, mas logo mudou-se para o bairro que sua música “Garota de Ipanema” tornaria conhecido no mundo todo. Assim como sua irmã Helena, mal conheceu o pai, Jorge, que morreu quando Tom tinha apenas oito anos e, antes disso, já não aparecia em casa há algum tempo. A mãe, Nilza, pediu permissão aos filhos para casar-se novamente, dessa vez com Celso Frota Pessoa, padrasto que seria um dos maiores incentivadores da vocação de Tom para a música. Quando chegava da praia, o calor intenso fazia da garagem de cimento o local mais agradável da casa em que Tom e sua família moravam. Ali ficava o piano que o padrasto alugara para Helena estudar com o professor Hans Joachim Koeulreuter. Mas Helena era preguiçosa e foi o irmão que despertou a atenção do mestre, que passou então a ensiná-lo. Nessa época, Tom já namorava Theresa Hermanny e tinha a firme intenção de se casar. Para isso, era preciso ter um diploma e foi então que passou a estudar para ser engenheiro/arquiteto, mas aos 19 anos desistiu do curso para dedicar-se ao piano - pela primeira vez à sério - através das aulas com a professora Lúcia Branco, que mais tarde burilaria também os talentos de Jacques Klein, Nelson Freire e Arthur Moreira Lima. Tom Jobim casou-se aos 22 anos e a única coisa que fazia bem, na época, era tocar piano. Tornou-se, então, pianista da noite. Não tinha escolha: era trabalhar nas boates de Copacabana, entre bêbados e prostitutas, ou passar dificuldades. Tocava de tudo: tango, guarânia, fox, canções francesas, rumba, boleros. Mas em 1952, cansado da barra pesada, Tom Jobim arranjou emprego de copista na gravadora Continetal e sua vida mudou radicalmente: trocou a noite pelo dia, passando para o papel as músicas que os compositores lhe cantavam acompanhados, muitas vezes, somente por uma caixinha de fósforos. Assim, ganhou experiência e passou a trabalhar com um de seus ídolos, o maestro e arranjador Radamés Gnatalli. Fez também diversos arranjos para cantores como Dalva de Oliveira e Orlando Silva, mas, um pouco pelo costume da época e muito por timidez, seu nome não aparecia nos créditos dos discos. Foi a partir de um arranjo que escreveu para Dick Farney que Tom Jobim ganhou coragem para mostrar suas próprias composições. O obscuro cantor Ernâni Filho gravou a primeira delas - “Pensando em Você” - mas o sucesso chegaria em 54, quando Dick e Lúcio Alves estouraram com “Tereza da Praia”, de Tom e Billy Blanco. A mesma dupla comporia em seguir a “Sinfonia do Rio de Janeiro”, lançada em LP de 10 polegadas com orquestrações de Radamés e as vozes de Nora Ney, Lúcio Alves, Dick Farney, Elizete Cardoso, Jorge Goulart, Emilinha Borba, Dóris Monteiro, Os Cariocas e Jamelão.

No tom da bossa
A partir de 1956, Tom Jobim caminhou rápido do bom conceito no círculo musical para a fama popular. Entre os parceiros mais constantes - Newton Mendonça (de “Desafinado” e “Samba de Uma Nota Só” , Dolores Duran (de “Estrada do Sol” e “Por Causa de Você”) e Billy Blanco -, despontava a figura do poeta, diplomata e boêmio Vinícius de Moraes. A seu lado, Tom compôs as músicas para “Orfeu da Conceição” - que virou filme francês premiado com a Palma de Ouro em Cannes e revelou clássicos como “A Felicidade” e “Se Todos Fossem Iguais a Você” - e para Elisete Cardoso, “Canção do Amor Demais”, faixa do LP de mesmo nome onde despontava, na profética “Chega de Saudade”, o violão revolucionário de João Gilberto. Estava armado o cenário para o surgimento da bossa nova.

Em 1959, saiu o primeiro disco de João, com arranjos e a maioria das composições assinadas por Tom Jobim, uma sucessão de sucessos na voz de Silvinha Telles - “Dindi”, “Só Tinha de Ser Com Você”, ambas em parceria com Aloysio de Oliveira -, polêmicas (“americanização” x nacionalismo) e o controverso mas sem dúvida histórico show no Carnegie Hall de Nova York. Tom chegou à cidade americana três horas antes do espetáculo, passou no hotel, trocou de roupa e abriu o show cantando, em inglês, “Samba de Uma Nota Só”. Foi a sua estréia como cantor. Depois, alugou um apartamento com João Gilberto e Sérgio Ricardo, enfrentando o frio e as desavenças com os americanos que insistiam em verter as letras de suas músicas para um inglês que se adaptasse ao estereótipo norte-americano do “país tropical”, forçando a inclusão de palavras como café, banana e coco. Tom Jobim venceu a batalha, gravou com Sinatra e Stan Getz, fez discos para o consagrado selo Verve, cantou com Andy Williams...Nos anos sessenta, sem exagero, havia duas novidades estrangeiras que dominavam o cenário da música popular nos Estados Unidos: os Beatles e a bossa nova.

Brazil com z
Mas depois do período áureo da bossa nova, o Brasil não foi justo com Tom: as gravadoras passaram a considerar seu trabalho não-comercial, a imprensa torcia o nariz para o sucesso de suas músicas no exterior, e a belíssima “Sabiá” - parceria com Chico Buarque - receberia uma estrondosa vaia ao vencer o Festival da Canção, em 1968 no Maracanãzinho. Ao lado de Theresa e dos filhos Paulo e Elizabeth, Tom Jobim morou dois anos na Califórnia e foi convidado a compor a trilha para vários filmes. Recusou “Two For The Road”, “Pantera Cor de Rosa” e “O Exorcista”, mas fez as músicas de filmes como “The Adventurers” (em Londres) e mais tarde, escreveria ainda para os brasileiros “Porto das Caixas”, “Crônica da Casa Assassinada”, “Gabriela Cravo e Canela” e “Eu Te Amo”. Nos Estados Unidos, Tom poderia ficar milionário somente com as trilhas sonoras para Hollywood, mas uma conversa com o também maestro e compositor argentino Lalo Schiffrin foi decisiva: “A gente começa a se envolver com Hollywood, fica fazendo aquele tipo de música com efeitos eletrônicos, barulho de água, acaba ficando rico, mas já não tem muita coisa a ver com a música”, contou Tom na época. Lalo disse-lhe que não voltaria mais para a Argentina, poi “já toquei todos os tangos possíveis e agora quero fazer outra música”. Avaliando a situação, Tom se deu conta de que o samba tinha pelo menos quarenta diferentes variações e voltou correndo para o Brasil.

Era o período negro da ditadura e Tom, imaginem só, foi intimado a depor em um órgão policial do Rio, suspeito de fazer parte de um movimento subversivo. Voltou para os Estados Unidos e produziu por conta própria o LP “Matita Perê”, lançado no Brasil em 1973, com a primeira gravação da fantástica “Águas de Março”. Gravou no ano seguinte o fundamental “Elis & Tom”, e voltou a repetir o papel de produtor independente nos Lps “Urubu”, de 1976, e “Terra Brasilis”, lançado em 1980. Para gravar sua obra nas condições que considerava ideais, Tom Jobim, o maior artista brasileiro de todos os tempos, investiu, do próprio bolso, a quantia de aproximadamente 250 mil dólares na execução destes três discos. Não é à toa que ele vivia repetindo a frase criada por Maurício Tapajós e Aldir Blanc: “O Brasil não merece o Brasil”.

Durante essa fase, a música de Tom Jobim aproximou-se muito da obra deixada por um de seus ídolos maiores, Heitor Villa-Lobos. E ao mesmo tempo em que distanciava-se cada vez mais do que as gravadoras consideravam “música comercial”, ia agregando de forma crescente os temas ecológicos às suas composições impressionistas e descritivas de um Brasil ideal. Casado pela segunda vez, com Ana Beatriz Lontra, Tom renasceu com a chegada inesperada dos novos filhos, João Francisco e Maria Luíza, enquanto assistia, finalmente, a um certo movimento de revalorização de sua obra. Gravou dois discos com Miúcha, gravou outro com Edu Lobo, compôs jóias de beleza indescritível para a TV Globo - “Luísa”, “O Tempo e o Vento”, “Anos Dourados” - e voltou a fazer shows e discos ao lado de uma banda que incluía basicamente os membros das famílias Jobim, Caymmi e Morelenbaum.

Seu último disco, “Antonio Brasileiro”, lançado em 1994 com intervalo de sete anos para o anterior, “Passarim”, revela um artista no apogeu de sua criatividade como compositor e re-criador de obras inesquecíveis. É um disco que possui a rara qualidade de instaurar, mesmo que por breves momentos, a felicidade em quem possua um mínimo de sensibilidade para viajar ao lado do maestro por belezas como “Forever Green”, “Maricotinha”, “Samba de Maria Luíza”, “Querida”, “Trem de Ferro”, “Trem Azul” e “Só Danço Samba”, para citar só algumas. A morte de Tom Jobim, a 8 de dezembro de 1994, dá um sentido ainda mais relevante à sua vida e obra, feitas com a matéria-prima do amor pelo Brasil e pela natureza, humana ou não. Um mestre capaz de levar o regente Rogério Duprat - o arquiteto musical do Tropicalismo - a uma singela mas valiosa homenagem: “Em 1966, na primeira audição pública da ‘Sinfonia de Brasília’, cantei no coro, lá atrás, só pra homenagear o cara”, ele conta. Ou nas palavras ditas por João Gilberto à revista Veja: “O Brasil já foi tão bonito...”. Continuará sendo, nas eternas melodias e letras de Antonio Carlos Jobim.

20 comentários:

peri s.c. disse...

Neil
Parabéns, uma vida em rápidas pinceladas.Belo texto.

jayme disse...

Tom foi, sem dúvida, o maior nome da música brasileira, seu mais fértil inventor e seu mais amoroso guardião. A história contada aqui não apenas relembra, mas também revela. Há um pequeno detalhe a acrescentar, mas que acho que enriquece as hipóteses lá do alto do texto, sobre as razões do sucesso de Tom. Um de seus professores de piano, a certa altura, lhe disse que ele jamais conseguiria ser um grande pianista erudito, por causa do tamanho de suas mãos, que alcançavam apenas uma sétima. Em vez de desistir do piano, ele preferiu, em vez de ser um concertista, ser Tom Jobim.

valter ferraz disse...

Márcio, trabalhei na Continental nos anos75/77. Conhecí o maestro Radamés. Tinha conceito elevado na casa. Infelismente a gravadora nunca soube valorizar o cast. Abriu mão de nomes de peso para investir em artistas "vendáveis". Por isso, desapareceu. O pessoal carioca interfiria demais. Quando acordaram, os maiores talentos já tinham debandado. Com Tom Jobim não foi diferente. Depois de morto, todo mundo gosta de citar, dizer do grande maestro. Memória curta, cultura pouca.
Este texto resgata, ilustra.
Um abraço forte

Neil Son disse...

e faltou dizer no texto, peri, que a entrevista feita pelo walter (e que seria feita por mim), foi a última da vida do tom. olha só a oportunidade que perdi...

Neil Son disse...

jayme: e o hermeto, que tem mãozinhas pequenininhas e gordinhas, é um excepcional pianista. cada um, cada um, não é mesmo?

Neil Son disse...

valter: as gravações do radamés na continental foram reunidas em um CD duplo(se não me engano) e relançadas há alguns anos. há pouco tempo, estavam à venda na feirinha da benedito calixto.

jayme disse...

Neil, há uma curiosidade que nunca entendi: se observarmos entre os grandes músicos, há muita gente com o shape do Hermeto. Eu conheci um músico da noite, excepcional, chamado Pudim (razões óbvias) que tocava qualquer instrumento que lhe aparecesse à mão, de piano a cavaquinho, de harpa a pandeiro, esplendidamente bem -- e com aquelas improváveis mãos de almofada. Será que devo fazer um regime de engorda para tentar voltar a tocar?

Ana Clara disse...

Nossa, morreu há 13 anos? Já???

Tom eternamente.

Texto esclarecedor.

neil Son disse...

jayme: e tem o caso classico do wes montgomery, que não tinha dois dedos da mão direita. isso não foi motivo para que abandonasse a guitarra; acabou desenvolvendo um estilo todo pessoal e rvolucionário, tocando com os dedos que lhe restavam.

Neil Son disse...

aninha, essa é pra você:

Um Tom, de Caetano Veloso:

Um tom pra cantar
Um tom pra falar
Um tom pra viver
Um tom para a cor
Um tom para o som
Um tom para o ser
Um tom pra gritar
Um tom pra calar
Um tom pra dizer
Um tom para a voz
Um tom para mim
Um tom pra você
Um tom para todos nós

jayme disse...

Neil, não era o Django Reinhardt?

Dani Penna disse...

Texto incrivel, que saudade do tom do TOM!! :)
beijos!!!

Neil Son disse...

putz jayme, tem razão! confundi o beatiful black com o gifted gypsy! mas ambos foram igualmente geniais.

Neil Son disse...

valeuaê, dani!!!

GUGA ALAYON disse...

País dos Tonhos.
De todos os espectros: da Malvadeza ao Sublime.
Belo texto

Neil Son disse...

e país dos joões tb, guga: do gilberto ao alves, passando pelos joões eleitos pelo garrincha.

luisa disse...

texto lindo. sem mais comentários!

jayme disse...

Neil, eu tenho feito o mesmo tipo de confusão. Outro dia, troquei o Manuel Bandeira pelo Guilherme de Almeida (esta, imperdoável).

Alessandra Alves disse...

desculpe o atraso! ótimo texto, vou linkar você lá no blog, assim que tiver um tempinho (é uma das promessas de carnaval a que me propus!) beijos!

Neil Son disse...

oi alê, volte sempre! (e vou te 'linkar' também)