segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Ser ou não Ser


O cinema brasileiro parece viver um estranho dilema, entre a ‘estética TV Globo’ – que respalda o sucesso de filmes como ‘Lisbela e o Prisioneiro’, A Grande Família’, e ‘Se eu fosse Você’ (aquele, com Tony Ramos e Glória Pires) - e a produção de filmes ‘de arte’ ou mais ‘profundos’, classificação que pode se aplicar tanto aos hoje peso-pesados e internacionais Walter Salles Jr. e Fernando Meirelles, quanto a diretores tão diversos como Jorge Furtado, Sergio Bianchi, Eduardo Coutinho, Laís Bodanzky, Marcelo Gomes (de ‘Cinema, Aspirinas e Urubus’), Heitor Dhalia (de ‘O Cheiro do Ralo’), Karim Ainouz (de ‘O Céu de Suely’) e tantos outros. Isso, sem falar de veteranos como Cacá Diegues, Bruno Barreto e Arnaldo Jabor (que anuncia sua volta ao cinema para este ano)...

‘Meu Nome não é Johnny’, que marca a estréia em longa do diretor Mauro Lima, parece ficar no meio do caminho. Possui méritos inegáveis, é verdade, mas me incomodou a sua clara opção por uma estética e uma abordagem um tanto ‘novela da Globo’ – patente nos diálogos às vezes engraçadinhos em demasia e até no João Estrella vivido por Selton Mello, que esbarra perigosamente em clichês da ‘escola Guel Arraes de interpretação’, alternando cenas de grande inspiração – como no depoimento à juíza – com outras onde parece indeciso, superficial como um personagem da novela das oito.

Não estou aqui colocando em dúvida a qualidade/competência do diretor global, responsável por acertos como TV Pirata e Os Normais, e muito menos o talento de Selton Mello, que é sem dúvida, um dos melhores atores da nova geração. Mas ‘Meu Nome não é Johnny’ é um filme esquizofrênico – didático e atraente ao contar uma história verdadeira e bastante próxima de muita gente; mas raso, ao deixar na superfície tipos decisivos para a trama (como os pais do protagonista e o ‘grande traficante’ representado por André de Biasi).


Bem, mas o filme já é um sucesso e isso é o que deve importar - não só para os diretamente envolvidos, como para o próprio cinema nacional como um todo. Ou não?

15 comentários:

jayme disse...

Ainda não vi, mas fiquei bastante curioso depois de ler as resenhas e ver o trailer. Outro dia (ou melhor, muitos meses atrás, em dezembro de 2004) escrevi uma nota lá no Dito Assim falando da redescoberta da vocação entretenimento do cinema brasileiro e o quanto a crítica era resistente a ela. Falava de "A Dona da História", de Daniel Filho, que, só por ser de Daniel Filho já perdia pelo menos duas estrelas da crítica. Na mesma semana, a mesma crítica dava um montão de estrelas para o depósito de entulho estético-sociológico chamado "Contra Todos", um filme-denúncia pueril com cara de bravo. Acho que temos de começar a pensar o cinema como indústria de entretenimento, na qual cabem as refeições ligeiras (que não precisam ser apenas os MacXuxa) e o fino biscoito de Glauber, Jabor, Joaquim Pedro e a meninada que vem por aí. Aliás, mais um ponto a louvar em Gilberto Gil (que, aliás, causou fúria no barão feudal Luís Carlos Barreto, na candidata a viscondessinha Paula Lavigne e em seu menestrel deslumbrado, o chato mais genial do mundo, Caetano Veloso) foi o apoio à produção do cinema brasileiro fora do eixo Rio-São Paulo. Tudo para prolixamente dizer: vamos lá ver o que é que o Johnny tem.

Neil Son disse...

é verdade, jayme, mais um ponto a louvar no gil - a produção de cinema no brasil nunca foi tamanha e tão democraticamente distribuída. e tb concordo que cinema é basicamente, entretenimento. pra concluir, digo que detesto os pseudocríticos (a 'intelligentzia') que preconceituosamente detona um filme delicioso como 'a dona da história' e incensa 'o céu de suely'. esse último, tirando a luminosa atriz principal, é uma merda de filme...

Sibila disse...

Oi Márcio,
de vagar vou às leituras bloguísticas. Então, de novo aqui. Te vi avizinhado ao meu comentário lá no Lord e exclamei comigo mesma: O Márcio!
Primeiro, "Café, Aspirinas e urubus" (sem dispor de itálico, vou nas aspas, ok?) não é do genial Cao Guimarães?
Tb não curto mto o Guel Arraes e NADA o Daniel Filho.
Se toca mta gente, acho q importa tb. Ou melhor: quase sempre o que aqui se produz em termos de cinema nacional - bom ou ruim - importa.
Realmente complicado saber como o Estado deve agir frente, por exemplo, a obtenção maior e + freqüente de recursos pra filmes "comerciais". Ainda bem q está havendo certo balanço nisso, gente interessada em cinema menos raso. Bj.

valter ferraz disse...

Márcio, todo apoio ao cinema nacional. Que venham mais filmes, ainda que sob a estéticas global. Ficamos muito tempo inertes, agora é hora de correr atrás.
Fico imaginando o Selton Melo fazendo um dos personagens que criei. Daria um show. Talvez o Guguinha. Ou o Boka, por quê não?
Abraço forte

anna disse...

assino embaixo, em cima e de ladinho.

sai do cinema com um sabor estranho.

só não pode o joão estrela virar um capitão nascimento do pó!

Neil Son disse...

sibila, a direção do 'aspirinas...' é mesmo do marcelo gomes. e essa questão do estado apoiar o cinema é um vespeiro; a gente viu o forrobodó que deu qdo o gil resolveu peitar aqueles que sempre mamaram na embrafilme (barretão e cia), como bem lembrou o jayme...

Neil Son disse...

valter: o selton é mesmo um puta ator; gosto especialmente da atuação dele no 'cheiro do ralo'.

Neil Son disse...

pelo visto, anna, o joão estrela não tem a mesma competência em sua atual profissão como possuía na ocupação anterior...

Patty Diphusa disse...

Neil, eu gostei do filme mas ele estreou mesmo globinho. O que não o desmerece totalmente. Mas acho que a indefinição do Selton ainda tem a ver com o personagem, um cara que vai no embalo por pura diversão. O diálogo dele com o psiquiatra, quando ele nega o pó e questiona como ele vai tratar alguém daquele jeito, apesar de verdadeiríssimo, foi um dos pontos mais fakes. Não era uma preocupação típica de João Estrela, a não ser o fato de que o cara era bandeiroso pra caramba.
Concordo com a história do pai, já até tinha comentado no blog, mas a mãe ausente também não se explica. No fim, a juíza vira a grande estrela, não? Bjs. Sem aquela sentença, a história seria outra.

Ana Clara disse...

Eu achei o filme o máximo. É claro que aquele monte de globalzinho era descartável (exceto o Selton Mello, óbvio). Poderiam dar mais chances aos autores de fora do eixo global.

Mesmo assim, me surpreendi. Ri com sinceridade (o que não acontece há tempos num cinema) e me emocionei com o final.

Melhor filme brasileiro do ano (vamos considerar como sendo 2007, vai). Bem melhor do que o também global "Tropa de Elite".

E concordo com a colocação de alguém, aí em cima.
Cinema nacional tem que ser incentivado. Seja global ou não.

Ao lembrar que há alguns anos só existia "Xuxa" ou "Trapalhões", devemos louvar até Daniel Filho!

Neil Son disse...

é patty, a juíza sai bem 'na fita'... e tb destaco o trabalho do ator que faz o psicólogo cheirador. muito bom o cara!!

Neil Son disse...

sei não, aninha, pra mim o grande filme nacional de 2007 é 'Jogo de Cena'.

peri s.c. disse...

Tivesse Fellini trabalhado na Globo, falaríamos dos clichês da " escola felliniana de desinterpretação" ?

Neil Son disse...

peri: aquele cara (esqueci o nome) que dirigiu aquela minissérie da globo (esqueci o nome) que revelou aquela mini-atriz (esqueci o nome), e que tinha a fernanda montenegro de madrasta má e o osmar prado de pai pedófilo, tinha muito de fellini.

Sibila disse...

Peri, espero que não nos falte faro a confundir merda com chocolate. Mas que é bem possível, ai, pior q acho q sim.
Beijos pra ambos.