sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Musas de Qualquer Estação


É a mais bem sucedida artista da música brasileira de qualidade, nas últimas décadas. E muito interessante: a trajetória de Marisa Monte revela, indiretamente, muito da fragilidade, da preguiça e da indigência cultural daquela parte da população brasileira que se julga a mais ‘antenada’, a mais ‘inteligente’ e a mais ‘formadora de opinião’. Ou seja, nós mesmos. Eu, você que me lê, nossos amigos próximos e nossos conhecidos distantes mas nem tanto. Explico porque, mais adiante.

De família da classe média-alta carioca, Marisa passou a infância e a adolescência alternando o estudo de música clássica com a convivência entre os sambistas da Portela, uma das paixões de seu pai. Aos 16 anos, circulava pelas lojas ‘descoladas’de Ipanema e do Leblon, vendendo as bijuterias que ela mesma produzia. Aos 19, Marisa foi pra Roma estudar belcanto; aguentou apenas dez meses do curso e passou a cantar música brasileira em bares da capital italiana; num desses shows, foi assistida por Nelson Motta e a ‘roda começou a girar’...

A incrível capacidade para ‘estar no lugar certo na hora certa’, a esperteza e a excelente rede de contatos de Nelsinho... era tudo o que Marisa Monte precisava. De volta ao Rio, com produção impecável e um eficiente boca-a-boca, Marisa Monte se transformou em ‘cult’ – seus shows em locais como o Mistura Fina eram disputados a tapa. Sucesso de público e crítica, antes de lançar qualquer coisa – algo muito difícil naquela era do vinil, pré-Internet. O primeiro LP saiu em 1988, gravado ao vivo e registrado em película por ninguém menos que Walter Salles Jr. ‘Bem se Quis’(versão de Nelson Motta para um hit romântico da música italiana) estourou no país todo e Marisa Monte virou a estrela do momento. A partir daí, aquele público ‘cult’ já começou a torcer o nariz... Eles odeiam o sucesso, detestam ter que ‘dividir’ seus queridinhos com a massa ignara...

No disco seguinte, ‘Mais’(1991), Marisa mostrou que era capaz de fazer um grande disco, ‘liberta’ de Nelson Motta. Foi nessa época, trabalhando para o Jornal da Tarde, que tive oportunidade de conhecê-la. Viajei para o Rio e entrevistei Marisa, por cerca de duas horas, nos estúdios da EMI-Odeon. Saí impressionado com a clareza de objetivos, com a sinceridade do seu talento, com a simpatia natural da moça. No táxi de volta ao aeroporto, me ocorreu que Elis Regina já poderia descansar em paz: surgia ali uma sucessora... uma cantora brasileira que reunia, finalmente, talento artístico, competência profissional e inteligência.

Acho que estava certo: a partir de então, sem deslumbrar-se com o sucesso ou perder o fio da meada, e amparada pela eficiência comercial do empresário Leonardo Netto (que foi meu chefe na Warner), Marisa começou a construir uma sólida carreira internacional e a manter uma distância segura da ‘mídia de celebridades’(argh), evitando a super-exposição, dosando com maestria suas aparições na mídia e em turnês - cada vez melhor produzidas, ao lado de músicos sempre competentes e cercando-se de concepções inovadoras de luz e cenário. O disco seguinte, ‘Verde, Anil, Amarelo, Cor-de-rosa e Carvão’ (1994), mostrava consistência e alta qualidade de repertório e interpretação, juntando Laurie Anderson e Paulinho da Viola em incrível uniformidade. Depois, ‘Barulhinho Bom’ (1996), disco e turnê, mostraram uma Marisa Monte que se reciclava, mostrando-se cada vez mais segura como compositora e bebendo da saudável fonte hippie-bagaceira dos Novos Baianos. Foi mais um acerto, e que ainda contou com a ousada capa com desenhos do nosso icônico (opa!) Carlos Zéfiro; a capa, aliás, foi proibida nos Estados Unidos, hehehe...

Diversificando sua área de atuação, Marisa Monte fundou seu próprio selo, Phonomotor, e desenvolveu trabalho belíssimo, comovente mesmo, com a Velha Guarda da Portela. Participou de shows ao lado dos ‘velhinhos’ e produziu o excelente ‘Tudo Azul’ (2000), CD que foi um presente para muitos deles - que ali realizaram a sua primeira e última gravação. Esse trabalho de Marisa ainda resultou no recém-lançado documentário ‘O Mistério do Samba’, dirigido por Lula Buarque de Holanda e Carolina Jabor e pré-selecionado para o Festival de Cannes. Em 2000, Marisa lançou o CD ‘Memórias, Crônicas e Declarações de Amor’, de nível um pouco inferior aos anteriores, mas certamente não-merecedor do buraco negro em que foi jogado pela tal suposta ‘minoria pensante’ – apesar (ou por causa) do grande sucesso de público. Logo depois, em 2002, Marisa produziu ‘Omelete Man’, excelente CD do caótico e brilhante Carlinhos Brown. E foi ao lado dele e de Arnaldo Antunes que Marisa lançou, no final daquele ano, o CD e DVD ‘Tribalistas’, sucesso absoluto que marcou o rompimento definitivo da tal ‘intelligentsia’ com a artista. Pois é, a partir do ‘Tribalistas’, virou moda falar mal de Marisa Monte – os cadernos dito culturais, o público ‘moderninho’ e os círculos mais ‘cultos’ transferiram para ela as suas frustrações e complexos. Marisa Monte virou a Geni da vez... impressionante. Agora, vou dizer: ‘Tribalistas’, o CD, e principalmente, o DVD, são excelentes. É um trabalho delicado e dedicado, riquíssimo em detalhes e em soluções sonoras inusitadas e criativas – a junção das vozes de Marisa, Brown e Arnaldo funciona à perfeição; e me fez até gostar um pouco do Arnaldo, vejam só...

Após quatro anos de sumiço quase total (a inteligência da auto-preservação...), Marisa Monte reapareceu em 2006, não com um, mas com dois CDs de músicas inéditas – ambos muito bons, ambos surpreendentes: ‘Infinito Particular’ e ‘Universo ao Meu Redor’. A longa turnê de lançamento, que rodou o mundo até há pouco tempo, quando a cantora entrou em mais uma fase de ‘retiro’, mostrou, além da cantora e da compositora, a Marisa Monte instrumentista, revezando-se pelo violão, guitarra, cavaquinho e até trumpete. Trazia ainda, uma interessante formação musical, juntando no palco violões, cello, violino, fagote, trumpete e percussão de samba – e tudo emoldurado por uma solução de luz e cenário que está entre as mais simples e criativas que já vi. É pouco ou quer mais?

Então aí vai: com seu nariz pronunciado, sua estatura exagerada (que acaba gerando uma postura meio ‘curvada’), suas mãos e pés grandes demais, sua tendência à ‘monocelha’, Marisa Monte está longe de se encaixar nos padrões de beleza. Sinceramente? Marisa Monte é feia. Mas é linda. Marisa Monte? Totalmente musa!

21 comentários:

googala disse...

concordo com quase tudo. Mas sempre me parece mais bonita nas fotos do que ao vivo.
E Arnaldo Antunes é muito bom.
abç

anna disse...

e olha o mãozão dela!

Márcia W. disse...

Gosto moderadamente dela, como cantora e tal, mas não me descabelaria para ver um show dela.
Arnaldo Antunes, homeopaticamente.
E Carlito Marron virou meu ídolo total quando rompeu, nas maior elegãncia e delicadeza, os protocolos batavos e tirou a rainha para dançar!
E, não só ela aceitou, como se divertiu e enloqueceu os poucos fotógrafos e demais presentes na ocasião, que não podiam crer no que estavam vendo. Considerando o capacete, digo, penteado cheio de laquê que a Beatrix usa, ela se equilibrou direitinho. Mais uma vez etc etc e tal...

Anônimo disse...

Neil:
Como posso explicar?Já sei.
Ela é como uma égua superior às éguas de páreo normal.Mas não chega a ser clássica.Ficou sem páreo.
Deixou-se nas mãos de Nelson Marmotta que a utilizou pelo imediatismo Produtor-musical,sem polir a pedra bruta para que se transformasse no diamante que ela é.
Leny Andrade,tinha dois caminhos:
Bossa Nova e Jazz.Depois de alguns anos conseguiu a liga ,mas eram apenas dois caminhos.Marisa Monte tem inúmeros caminhos pelo virtuosismo de sua voz privilegiadíssima.A ilustração disso está em seus figurinos de shows.A cada apresentação ela se veste (mal),com roupas que parecem personages diferenciados.
Não existe dualidade artística.
Em minha modesta opinião,ela já criou um público para sua diversificada obra,falta o achado de multiplicar êsse público.Não é fácil.
Ela é musa de todas as estações(de rádio e de ano).
Chega.Escreví demais.

"Merda,estou lúcido".

Abração

Günther.

peri s.c. disse...

Neil
Tudo perfeito em seu texto, só achei um pouco exagerada a comparação com Elis, que quanto mais penso e ouço, mais admiro. Veja o "Coreto" de sábado lá no Armazém, ela com o Adoniran. Luminosa.

Anônimo disse...

Peri:
Mais uma.Adoro a Elis mas lá vai mais uma.
Meu tio avô,irmão de minha avó ,que compôs entre tantas outras (vide Adelino em seu blog),são obras primas da música popular.Êle se chama Claudionor Cruz(lançou Orlando Silva,Rosinha de Valença(era pobrinha e meu tio comunista dava aulas para ela grátis ,pelo talento que a môça demonstrava)),parceiro de Ataulfo Alves,Francisco Alves,e de Pedro Caetano,que fizeram juntos "É com êsse que eu vou",e que só consta o nome de Pedro Caetano no crédito da música no disco da Elis,sendo que a música é de meu tio e 60% da letra.
Coincidentemente uma amiga me ligou hoje e disse que recentemente êle virou nome de rua no Rio de Janeiro.
Os Blogs são para essas coisas.

Sua memória invejável vai de encontro à de Adelino e da minha ,que já se encontra no bico do Côrvo.
O homem é sua memória.
Com admiração
Günther.

jayme disse...

Linda, linda! Por favor, passei boa parte da minha vida a entender por que achava lindas mulheres que o padrão revista desprezava. Até que descobri que o melhor momento da vida é aquele em que você escolhe as suas lindas. Marisa Monte, por exemplo, é uma lindura total. Para mim, mais bonita, sem dúvida alguma, que a maioria das capas recentes de revistas. E não é racional, conceitual. Acho-a mesmo uma coisa.

peri s.c. disse...

Jayme
Brilhante comentário.
A explicação para a sua dúvida, que é na verdade é de todos nós, pode ser esta :

" Quem ama não se apega apenas aos "erros" da amada, não apenas aos caprichos e às fraquezas de uma mulher. Rugas no rosto e sardas, vestidos surrados e um andar desajeitado o prendem de maneira mais durável e inexorável do que qualquer beleza ( ... ) E por que ? Se é correta a teoria segundo a qual os sentimentos não estão localizados na cabeça, que sentimos uma janela, uma nuvem, uma árvore não no cérebro, mas antes naquele lugar onde os vemos - estamos também nós, ao contemplarmos a mulher amada, fora de nós mesmos ( ... ) Ofuscado pelo esplendor da mulher, o sentimento voa como um bando de pássaros. E assim como os pássaros procuram abrigo nos esconderijos frondosos da árvore, também se recolhem os sentimentos, seguros em seus esconderijos, nas rugas, nos movimentos desajeitados e nas máculas singelas do corpo amado. Ninguém, ao passar, adivinharia que, justamente ali, no que é defeituoso, censurável, aninham-se os dardos velozes da adoração.

Walter Benjamin "

leila disse...

Bacana o comentário do Jayme. Eu também acho a Marisa bonita, e claro que o canto dela a eleva a um plano superior.

Neil Son disse...

guga: ela é incrivelmente fotogênica.

Neil Son disse...

em todas as fotos, anna. ela claramente se vangloria do mãozão.

Neil Son disse...

marcia w: marisa faz, há anos, os melhores shows do país. e adorei a história do carlito marron com a beatriz - a rainha e o plebeu!

Neil Son disse...

gunther: o nelsinho deu o 'empurrão' inicial e foi uma espécie de mentor no começo da carreira da marisa. mas foi só isso: há bastante tempo ela anda com as próprias pernas (e que pernas!). e se ela se veste mal? não sei se concordo... talvez eu não saiba bem o que seja 'se vestir bem', mas uma coisa eu sei: marisa monte tem estilo.

Neil Son disse...

peri: talvez tenha me expressado mal, mas não quis compará-la com a elis. apenas acho que, desde a morte de elis, a musica brasileira não tinha uma cantora que unisse talento, inteligência e profissionalismo/competência. elis tinha e marisa tem. não é pouco, mas é só isso.

Neil Son disse...

o comentário do jayme é verdadeiramente demais...

Neil Son disse...

peri: benjamin no pedaço! uau, que chique!

Neil Son disse...

o canto, leila. e o jeito que ela usa esse canto. no inicio, falavam muito do ecletismo da marisa; depois, isso virou uma espécie de um fardo do qual ela se livrou com elegancia, transformando o ecletismo em estilo próprio.

Patty Diphusa disse...

Acho que, no fim, todos têm um pouco de razão. Ela tem talento, inteligência, estilo, uma mão enorme, é fotogênica, e impera em terra que, infelizmente, tem pouquíssimas rainhas e princesas à altura. E tem o olhar, o andar e a voz de musa. Valeu, Neil.

Está se acabando na comemoração? Congratulations, apesar de não aguentar mais esses são paulinos metiiiiidos.

Bjs

Márcia W. disse...

Neil,
meu comentário sobre não me despencar para ver shows dela é justamente por não estar no Brasa. Uns dois atrás o mais perto que ela passou daqui foi na Bélgica. Uma galera que conheço foi, pagou show, hotel, transporte e tal. E esse tipo de produção para mim ou tem que ser para ver algum semi-deus ou meu saldo bancário aumentar consideravelmente...

Neil Son disse...

marisa monte é tudo, patty, só não é sao-paulina. ninguém é perfeito mesmo, hehe...

Neil Son disse...

é marcia w, no seu lugar, tb não teria ido...