quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Momento mágico

Não sei porque ele resolveu escrever sobre isso agora, cinco anos depois, mas em seu costumeiro estilo verborrágico (dessa vez, até que nem tanto...) mas quase sempre genial, Caetano Veloso comenta em seu blog (http://www.obraemprogresso.com.br/), sua participação na festa de entrega dos Oscars, em 2003. Na ocasião, cantou ao lado da mexicana Lila Downs, Burn it Blue, música-tema do filme 'Frida'.

Uma delícia as 'observações antropológicas amadorísticas' que Caetano faz de Los Angeles e da própria festa; e ao final do texto, uma referência ao CD 'A Foreign Sound', mais um entre os trabalhos recentes do artista, injustamente ignorados ou apressadamente criticados pela pseudo-intelligentsia... E depois de texto, a apresentação no Oscar (santo YouTube!): uma bela canção, um magnífico cantor, uma deslumbrante cantora.

Sou louco por Julie Taymor (Roberto Mangabeira me disse que o “Titus Andronicus” que ela fez com Anthony Hopkins é genial). Vi o “Rei Leão” na Broadway e achei bem bonito. Vi também, com a própria Julie, a montagem dela para “A flauta mágica” no Lincoln Center. Muito impressionante. Mas eu não tinha interesse em cantar a música para o filme e muito menos em ir apresentá-la no Oscar. Fiz por amizade a ela. Ir até Los Angeles, cidade que eu abominava, para fazer aquilo me parecia o programa mais furado do mundo. Julie insistiu com tanta doçura que não pude resistir. Mas tive que fazer esforço pra me concentrar e reaprender a canção (estou sempre fazendo muitas coisas e me enrolo). Uma vez lá, gostei. Não tanto no palco, mas na platéia e na cidade. Pela primeira vez não detestei Los Angeles simplesmente: dentro do teatro, em meio a tantas figuras que conheço desde menino (eu estava sentado ao lado de Joel Gray, logo atrás de Rita Moreno e Shirley Jones, e à frente de Mickey Rooney) e de celebridades do momento (Halle Berry é mais linda e mais escura pessoalmente, Nicole Kidman parecia ter a testa paralizada, Jeniffer Lopez faz cara de brava, adorei aquela moça que luta kung-fu no filme do super-herói cego, em que ela tem toda a graça do mundo e Ben Afleck nenhuma - toda essa gente ficava nas primeiras filas, assim como Merryl Streep, Barbara Streisand, Tom Hanks ou Pedro Almodóvar, que vinha cá atrás falar comigo e com Paulinha a cada intervalo), senti Los Angeles como um lugar real como nunca antes. Na rua, no hotel, nos restaurantes, a cidade parece um cenário desolado e precário; para lá dos tapetes vermelhos do Oscar, no coração do mundo da fantasia, tudo é real. O orgulho genuíno com que toda aquela gente se vê participando da história de Hollywood, toda a consistência dos conseguimentos (que impressionam muito quando tomados em conjunto: clips de homenagem, prêmios históricos a produtores, diretores e intérpretes), tudo dá um ar de solidez e saúde que a cena ridícula de mulheres de vestidos longos e homens de black-tie andando ao sol da tarde na entrada do teatro não poderia predizer: lá dentro é uma noite de gala verdadeira. De tal modo que, desde então, Los Angeles como que ganhou sentido para mim. Algum sentido. Mesmo as coisas que eu tinha adorado quando saí para ver o que interessa com Peter Sellars (o diretor de teatro e ópera de vanguarda, não o ator), quer dizer, as torres de Watts, uma igrejinha católica no bairro chicano, cheia de florezinhas cor-de-rosa na parede, a saída para o deserto de Joshua Tree (um dos lugares mais lindos onde já estive), um restaurante chinês em Downtown LA, mesmo então, nada se adensava numa cidade reconhecível. Com o Oscar, tudo se revelou surpreendentemente uno. Não sou muito fã da “Frida” de Julie. Não era um projeto dela: ela caiu ali de pára-quedas. Mas Salma Hayek é um amor total e o projeto era dela (houve uma disputa com Madonna, sei lá). Adorei Lila Downs. Ela tinha vindo ao Brasil para gravar a canção comigo aqui no Mega (onde estou agora mixando com Moreno, Pedro e Daniel). Ela é muito aplicada e canta muito bem. Eu estava na platéia, ao lado dela e de Paulinha, e alguns minutos antes de cantar alguém vinha nos chamar (e nossos lugares eram ocupados temporariamente por “aluguéis de bunda” ou “bundas de aluguel”: o teatro não pode aparecer na TV com nem uma só cadeira vazia). Fomos lá para os camarins, cantamos e voltamos para nossos assentos. Eu não dei muita importância ao fato de estar sendo visto por milhões de pessoas: eu não estava. Não era uma apresentação de algo meu, que me representasse. Fiz de bom grado, por amor a Julie (e a Eliot, marido dela, autor da música e trilheiro hollywoodiano), mas minha energia ficou mais voltada para observações antropológicas amadorísticas da vida em LA. Julie e Eliott são dos pouquíssimos americanos que mostraram entusiasmo com “A Foreign Sound”. Mas também eles foram ver o show (o que não aconteceu com os outros americanos interessantes que conheço): quando tinham só ouvido o disco não disseram nada. Ela e eu nos prometemos de vez em quando fazer alguma colaboração. Mas eu não me lembro da canção de “Frida”.

32 comentários:

franka disse...

o cara cantou todos os namoros de todas as mulheres da minha idade.
frankamente, neil... ô muso de qualquer estação.

anna disse...

um pouco nervoso, mas sempre deslumbrante esse gato cantante e verborrágico.

e que forte a cantora!

lucia, um muso para todas as estações.

neil, tem foto dele com cobra no pescoço?

googala disse...

Sensacional!

Acho que tem uma dele com cobra em outro lugar. ahaha

Neil Son disse...

e os namoros dos homens também, franka. é um muso, sem dúvida. é a nossa vida que passa pela voz dele.

Neil Son disse...

não sei se nervoso, anna, mas um pouco ausente, com certeza (como ele mesmo admite no texto). a gravação (presente no cd da lila) é muito mais bacana - e tem o dobro do tempo.

Neil Son disse...

googa!! esse é um blog-família, hahaha... e olha: sei de fonte segura que o caetano, nesse quesito homossexualidade, é que nem ele mesmo cantou no passado: 'não sou proveito, sou pura fama'.

anna disse...

bota aí, neil, no dia do muso de qualquer e todas as estações e idades, uma imagem do caetano com a cobra em qq lugar!

Anônimo disse...

O que êle gosta de cantar é menino do Rio.
Günther.

Anônimo disse...

Momento mágico é quando êle engole a cobra.Uma oroboros.
Günther.

googala disse...

É isso aí, anna!

Mas que a ex-mulher batia o pau na mesa e mostrava a cobra por ele, isso fazia. ahaha

googala disse...

Marcio , de fonte segura? Só garanto o meu, cara!
E olhe lá!

Neil Son disse...

olha gente, não quero parecer careta, chato ou muito menos, censor, mas... nesse post, muitos temas estão colocados: de cara, destaco o blog do caetano (alguém já visitou?), a festa do Oscar, a cantora mexicana que poucos conhecem, o filme 'frida', o aparente nervosismo (ou desprezo) do Caetano no video apresentado, a beleza da canção, a cidade de Los Angeles, os 'bundas de aluguel', o mencionado Peter Sellars (quem é?), o disco 'A Foreign Sound'. mas tudo isso foi ignorado, jogado pra debaixo do tapete por conta de uma discussão de tom preconceituoso e mais ainda, ultrapassado e antigo, sobre a pretensa homossexualidade do artista. sinceramente? uma decepção.

hélio disse...

Sobre o Caetano, nada a dizer, só acho que sumiu faz tempo. Cansou. Mas é sem dúvida, um craque adorável.

Neil, só uma dúvida. Achei muito estranho essas "bundas de aluguel"... Será que quando vc volta para o seu lugar, o bunda de aluguel esfria a cadeira, ou vc senta no quentinho?

Neil Son disse...

hélio: é exatamente esse negócio de "sumiu" que me irrita. o cara tá aí, lançando regularmente seus CDs, ano após ano, fazendo shows e o escambau. e em seus Cds, se os 'detratores de plantão' tivessem saco pra escutar antes de avacalhar, descobririam que em TODOS, ABSOLUTAMENTE TODOS os cds do caetano (antigos ou recentes) tem pelo menos duas ou tres músicas GENIAIS. isso, convenhamos, já é muito mais do que alcançam 99% dos compositores nacionais; além disso, o cara canta estupendamente. bom, e quanto às bundas de aluguel... já tinha ouvido falar sobre isso (acho que foi o fernando meirelles). e o lugar deve ficar quentinho sim - afinal, sabemos todos, os americanos tem as 'costas quentes', hehe...

Ricardo Soares disse...

marcinho... sensacional seu recado sobre Jabor no meu blog !!! vai lá que comentei ! vc é fogo cara !

Mas estou aqui para cutucar vc em relação ao Caetano e ao blog que ele faz. Vc com seu notável senso crítico as vezes me surpreende ! O blog do Caetano é chato e verborrágico pra caralho, aliás a cara dele, um eterno "cagador de goma" ... me surpreende que vc o leve tão a sério como intelectual... Caetano usa e abusa de sua verborragia porque se sabe genial como compositor e cantar. Aliás quanto mais velho fica melhor canta... agora que fala uma quantidade enorme de bobagens, isso fala...e de mais a mais seu blog é muito mais legal que o blog chato dele... aquele abraço !

googalabambi(olha o preconceito...) disse...

Que careta!ahahaha
'A Foreign Sound'é tudo de bom.
O blog do elemento é mediano.
A sua cobertura do oscar ficou ótima
*
Mas entendo sua 'caretice', só não acho que houve nenhuma discussão, muito menos preconceituosa. Espero que vc tome a mesma postura e não seja tão preconceituoso de novo com moças que tem o dedo vizinho do dedão maiores que o primeiro. ahahaha
abç

Neil Son disse...

ricardo: não que eu "o leve tão a sério como intelectual". na verdade, levo ele a sério como cantor e compositor, sem dúvida um dos maiores de todos os tempos. tb acho que ele fala um monte de besteira; mas como fala muito e é inteligente, também fala muita coisa certa. o blog é verborrágico (e ele sabe disso, tenta se policiar hehe...), mas é corajoso ao expor a 'persona caetânica', de uma maneira que o gil, por exemplo (com todo o papo de inclusão digital), ainda não fez.

Neil Son disse...

é verdade, guga, não chegou a haver uma discussão... mas é que to cansado dessa 'modinha' de esculhambar o caetano, de chamá-lo de chato, de viado, de seiláoquemais. o que vale e o que vai ficar, para a posteridade, é a sua magnífica obra musical. o resto é o resto.

googala disse...

Verborrágico é a parte dos comments por lá, consegui ler 437 comentários (longos a maioria) dos comentadores de lá num post interessante(pelos pontos de vista). Dá pra cansar, mas vale
Como o cara tem tiétes e tiêtes. impressionante, mas esperado. Copio aqui trecho do post a que me refiro:

"A hipótese de “mulato” vir daquela palavra árabe sempre me convence mais do que a de que vem de “mula”. Mas o Houaiss dá “jumento” como o primeiro significado da palavra. Segue-se “burro pequeno, ainda novo”. O.K. Mais crível que SEJA burrico do que que VENHA DE mula. Para “vir de mula” seria preciso uma formação de palavra italiana (em inglês tem dois tês), como “frutato” (ou será “frutatto”?): era assim que eu pensava até ler o Houaiss. Seja como for - além de jumentos serem bonitos (e jumentinhos novos, lindíssimos, parecidos com Brigitte Bardot) - “mulato” é uma palavra com conotação positiva no português brasileiro que aprendi em casa e na rua. Mais: no segundo verso da canção que é o Hino Nacional Brasileiro não-oficial, “Aquarela do Brasil”, o país é chamado, orgulhosa e carinhosamente, de “meu mulato” (aliás o Houaiss dá “inzoneiro” como sinônimo de “mulato”, quando este tem valor adjetivo). By the way, a “Aquarela do Brasil” foi eleita em votação popular (popular mesmo: a audiência do Fantástico) como a primeira dentre as “maiores músicas brasileiras de todos os tempos”. Seguida, se não me engano, de “Águas de março”, “O bêbado e a equilibrista” e “Carinhoso”.

Glauber, lembro do Stained Glass. Depois eu falo.

Ricardo Pereira, conheço Júpiter Maçã (ou Apple). Depois eu falo.

Gravataí Merengue, concordo totalmente com você: afro-isso, afro-aquilo (e a forma americana “African- American” é ainda pior) é um modo racista de falar. Um egípcio é africano. Um bôer da África do Sul também. O mesmo para tunisinos, marroquinos e argelinos. “Africano” não quer dizer “negro”. Mas mesmo que todos os africanos fossem pretos, seria racismo designar povos tão variados (inclusive fenotipicamente), oriundos do maior continente da Terra, por uma só palavra. Iorubanos não são bantos, malineses não são bundos, haussás não são gege. São povos com histórias diferentes e muitas vezes tingidas de inimizades milenares. Chamar um mulato filho de uma branca americana com um preto do Quênia de “African-American” é uma grosseria histórica. Essas expressões são “muito piores do que qualquer outra adotada espontaneamente pelas pessoas”, como você diz. Usá-las é adotar o olhar do traficante de escravos."
*
Valeu!

Anônimo disse...

Neil:
Quanto a parte que me toca :
Tenho uma revista guardada,alemã,editada também na Espanha,sobre artes e de enorme circulação.A numero 3 me foi envia da por uma amiga envergonhada ,que mora lá.
A matéria assim começa:
"Caetano Veloso,não cansa de contar uma piada sôbre o Brasil:
-Quando Deus fêz o Brasil,favoreceu demais seu clima,suas belezas naturais,etc;e os anjos questionaram tamanho favorecimento.E Deus respondeu:
mas esperem para ver a gente de merda que eu vou colocar lá."

1-Eu sou preconceituoso com êle?
2-Os artistas que fazem contato com os europeus tem que limpar a merda dêle ou assumir um passaporte de merda.
3-Êle não é mais baiano,é cidadão universal.
4-O complexo de "vira-latas" é dêle ou é nosso?
5-Isso não é coisa de bichinha mucama?
6-Um conselho para um do meus melhores amigos:não se comprometa com o fã clube.Você é espada.

Neil:
"It`s us in the tape", ups...isso pega,... não,não...

"É NÓIS NA FITA". Ufa.

Abraços
Günther.

Patty Diphusa disse...

Olha, Neil, fiquei até com medo de comentar, hem...e olha que gosto do cara.

Estou só no eco de algumas palavras...verborrágico...genial...ególatra (alguém disso isso?)... ótimo compositor...Frida...ótimo cantor....Oscar...nervoso...genial (várias vezes)...mais?

bjs, fica bravo não.

Neil Son disse...

já tinha lido esse pot caetânico, guga. gosto especialmente da parte: "jumentinhos novos, lindíssimos, parecidos com Brigitte Bardot". hahaha, de onde ele tirou isso?!

Neil Son disse...

gunther: nem a piada (boa, mas possivelmente em contexto errado), e muito menos a suposta bichice, apagam pra mim o que o caetano tem de melhor, ou seja, o seu talento musical insuperável, que já rendeu muitas das melhores músicas e letras do cancioneiro brasileiro. e em vários lugares do exterior por onde já circulei, ao contrário do que você disse, CV é símbolo de excelência artística, referência cultural e motivo de orgulho para o país.

Neil Son disse...

uma coisa é verdade, patty. pelo que mais uma vez constatamos aqui, o cara continua gerando polêmica e é garantia de audiência!

Anônimo disse...

Neil:Eu não questionei talento musical.Só as bolotas de cocô verborrágicas com características mariquinhas.Então conclui-se que êle só deveria cantar e compor.O comum acôrdo é êsse?

Günther.

anna disse...

guga, você leu q-u-a-t-r-o-c-e-n-t-o-s e t-r-i-n-t-a e s-e-t-e comentários????

hélio disse...

Acho que é isso mesmo Neil, parte do seu trabalho musical, suas letras, é genial. Concordo.
Quando eu digo que calou, é que quando podia falar não falou, e agora que não tem muito que falar, quer falar. O narcisismo do Caetano me enche profundamente o saco. Sempre foi paparicado por todo mundo, agora não é mais. Caetano está sendo negado pelas novas gerações. Aquela cena com o
D2, depois na tv dizendo que se mulher mandasse nele, ele dava porrada... uma coisa que me fez rever o Caetano. O que não tinha crítica começou a ter. E parece, pelo que lí aqui comentado, ele está perdendo o interesse. Caetano está envelhecendo, e vamos ver como ele lida com o tempo. Nossas lembranças, e o seu talento maravilhoso já dão a ele, o lugar na história que ele tanto quer.
O blogg dele, não me dispertou interesse algum. Estranho.

Neil Son disse...

tá bom gunther, o comum acordo é esse então.

Neil Son disse...

o guga agora dá aula de leitura dinâmica. sabia não, anna?

Neil Son disse...

hélio: o caetano não 'está envelhecendo'; o caetano JÁ É velho, tem 66 anos. isso, por si só, demonstra a atualidade do cara - por sua imagem, por sua descontrolada verborragia, por seu ego exacerbado, por sua inquietação, por ser espivitado, 'esquecemos' que caetano já é um 'senhor'. o disco de estúdio mais recente, por exemplo, 'CÊ', foi odiado por muitos e ouvido por poucos - é, mais uma vez, surpreendente e iconoclasta: um disco de rock cru e de guitarras destorcidas, incomum prum sinhozinho que podia estar gravando um acustico MTV qualquer (como fez aliás, o 'rebelde' lobão...).

googalazuldopapeldamaça disse...

Resumindo: Caetano 'já é', ou ainda é, como pensam outros.
abç

peri s.c. disse...

Lobão, rebelde? oh, oh.
Admiro velinhos espevitados.Melhor que velhinhas espevitadas, que via de regra se enchem de botox, silicones e etc. O problema é que os velhinhos, sem estes artifícios para acreditar na sobrevivência do físico, resolvem abrir a boca em demasia, turbinados pela antiga idolatria de que foram vítimas ( vítimas ? interessante .. ). Com isso acabam desviando até a atenção do provável bom trabalho que continuam fazendo ( quando fazem, lógico ).
Quanto ao ego exacerbado, e sem entrar na questão de eventuais homossexualides, ele que enfie seu ego no cu, porra.