terça-feira, 20 de novembro de 2007

Negro é Lindo!


Dos 5.561 municípios brasileiros, 225 incluíram em seu calendário de feriados o dia 20 de novembro, em comemoração ao Dia Nacional da Consciência Negra. A data lembra o assassinato do líder negro Zumbi dos Palmares, símbolo da resistência à escravidão, preso e degolado em 1695 pelo bandeirante Domingos Jorge Velho. O feriado é uma reivindicação antiga do movimento negro, que vê maior importância na data em comparação ao dia 13 de maio, quando é comemorada a abolição da escravatura pela princesa Isabel, em 1888. A data encontra resistência em diversos setores do movimento, por ser lembrada pelo ato de generosidade de um branco.

Declarações de Joel Rufino, professor, historiador e professor de Letras da UFRJ, no Estadão de hoje:

"A questão racial está na pauta e não vai sair tão cedo. É positivo. O outro lado da questão é o que não mudou, como a discriminação no mercado de trabalho. Os salários, em média, baixam 50% quando um negro vende a mão-de-obra. E o que piorou, a meu ver, é a incompreensão dos intelectuais. Como o assunto é um divisor de águas, vejo um recuo. Hoje, há quem negue a questão racial no Brasil".

Na prática, o dia 20 de novembro é palco de comemorações do movimento negro desde o início dos anos 70, quando foi revelada a data do assassinato de Zumbi. Em 1978, a data foi escolhida pelo Congresso do Movimento Negro Unificado como o Dia da Consciência Negra. Mas só foi incluída no calendário escolar brasileiro em 2003, por meio de uma lei sancionada pelo presidente Lula.

Calcula-se que 4,5 milhões de negros africanos foram trazidos ao Brasil no período da escravatura; muitos mais, entretanto, saíram de seus locais de origem, atravessando o Atlântico nos pavorosos navios negreiros. Estima-se que 40% morreram no caminho!! E o Brasil foi o último país do mundo a abolir o sistema escravagista... até que ponto será que aboliu mesmo? Eu, por exemplo aprendi na escola que os bandeirantes - esse tal de Domingos Velho, entre eles - eram heróis nacionais...

27 comentários:

Anônimo disse...

aprendemos tudo errado.

salve jorge, seu jorge, john coltrane, emmanuel araújo, roque junior, ismael ivo, thais araujo, carlinhos braun, antonio pitanga, denzel washington, pelé, ronalducho, o gaúcho, felipe goleiro e dentre tantos outros o professor de dança da ex-escola de meus filhos. affe...

e que esse dia traga a consciência de um só corpo aos arianos, asiáticos, árabes, indígenas, indianos e judeus.

anna

peri s.c. disse...

Neil
Bela lembrança citar o Joel. Foi meu professor de História no cursinho, no início dos anos 70. E, para milhares de estudantes o primeiro contato real, no auge da ditadura, com alguém por ela efetivamente perseguido.
Ele tinha que dar aula com um outro nome, Pedro Ivo. A notícia correu rápido pelos alunos, no mínimo alertando que existia no ar alguma coisa além dos aviões de carreira.

pecus disse...

Sem pretender defender a violência nem minimizar a discriminação racial, negros escravizavam negros, índios escravizavam índios, brancos escravizavam índios e negros, e às vezes eram escravizados também. O mundo era mais selvagem, e acredito que atualmente a questão racial tem pouco a ver com a escravidão.

Neil Son disse...

anna: bela lista, belas palavras, bela comentarista...

Neil Son disse...

muito legal, peri. não sabia nada sobre o joel e gostei da entrevista dele, ontem no estadão.

Neil Son disse...

é pecus, todos escravizavam todos, todos comiam todos, mas só os negros foram trazidos à força pro brasil. os índios já estavam aqui, enquanto judeus, arabes, italianos, alemães, portugueses etc e etc vieram por vontade própria. e o gene dos tempos da escravidão está incrustado em todos nós - basta lembrar de expressões como 'pé na cozinha', 'senzala', 'pelourinho' e muitas outras.

Luisa disse...

Sem mais palavras, uma maravilha a comemoração do dia da consciência negra, pelo menos para quem é ou se diz negro. Fui à praça da sé, assisti shows, danças e tinham exposições ainda para se ver. Nunca vi tanta gente na rua com orgulho de ser negro. É esse tipo de coisa que coloca a importância dessa data na cabeça das pessoas.

Neil Son disse...

luisa: um valioso depoimento, 'de dentro pra fora'

Gabriel disse...

Ao camarada Pecus: você se esquece que a escravidão negra se difere de todos os tipos de escravidão que humanidade já enfrentou. O homem sempre impôs trabalho forçado a outros homens. Mas sob dois moldes: por dívida ou por derrotas bélicas. A escravidão negra se baseou nos moldes da exploração capitalista. Qual a diferença? Visa exclusivamente o lucro; é rigidamente calculada nos escritórios dos economistas; conta com margens claras de ganhos e perdas; precisa de estoques sobressalentes para manter o mercado aquecido. É o primeiro modelo de escravidão a alienar COMPLETAMENTE o escravo de sua humanidade, pelo resto da vida.
Tudo isso é agravado pelo fato de que o negro foi explorado além-mar, sem nenhuma possibilidade de resgate de sua cultura e raízes. Teve seu nome, crenças e cultura usurpados. Virou, de fato, carga. Hoje, nós negros, estamos começando a nos adaptar a essa terra. Não é fácil, temos apenas 500 anos por aqui. Tínhamos 14 mil de África. Por mais que já não sejamos africanos do ponto de vista técnico, também não somos exatamente americanos. Isso porque não somos bem aceitos aqui. Depois que nos usaram para construir este continente, nos descartaram como carga inútil. Somos contingente podre de cadeia, protagonistas de páginas policiais. Como povo, ainda somos resignados a três carreiras: o crime, a música e o futebol. Por isso, não comemoramos o papel que a princesinha assinou nas férias do papai. Pra que festejar o dia em que fomos considerados inaptos até para o trabalho escravo?
Somos diferentes dos índios – eles tiveram possibilidade de fuga, morreram e, os que sobreviveram, vivem em sua terra, arraigados a sua cultura. Somos diferentes dos judeus – eles foram muito mais do que bem indenizados: hoje são senhores. Diferentes dos sumérios, que morreram lutando. Diferentes dos egípcios que eram escravos de seus deuses. Diferentes dos gauleses, que lutavam nas linhas de frente das legiões romanas sabendo que suas mulheres e filhos estavam a salvo do inimigo. Diferentes dos gregos, que eram escravos intelectuais, incumbidos de ensinar sua rica cultura aos dominadores. Diferentes dos irlandeses e escoceses, que foram escravos em sua própria terra.
Somos um produto ultrapassado, largado para apodrecer nos estoques, sem possibilidade de reinserção no mercado. Somos o fruto podre do mais perverso sistema escravocrata já inventado. Fazer o que com a gente agora? Não sei, é isso que temos que discutir. Agora que a gente é sobra, é melhor formar políticas de inclusão, porque, excluídos, ignorantes e revoltados, nós somos um problema sério.

Neil Son disse...

putz, gabriel, A - R - R - A - S - O - U !!!!!

GUGA ALAYON disse...

Gabriel, vc é uma das soluções deste problema sério. ´Continue assim. Abraço

GUGA ALAYON disse...

anna, o roque junior é muito ruim e não é isso tudo não. ahahaha
bj

anna disse...

guga, é mó gato. minha lista é muito eclética...

jayme disse...

O fosso racial ainda existe, nunca na história da humanidade se forçou tanta gente ao degredo quanto no período do tráfico escravo para as Américas, Brasil longe à frente. No entanto, embora ache o texto do Gabriel absolutamente bem escrito -- ainda mais considerando que um espaço como este pede textos sem releitura --, tenho alguns pontos a colocar: "darcyanamente", acho que o negro é parte inalienável do que pode ser chamado de povo brasileiro. É artificioso -- e fácil, por didático e esquemático -- colocá-lo como à parte, abandonado ou não inserido. Esse modelo cabe ao negro americano, até hoje pouquíssimo miscigenado e de identificação mais clara. O nosso caso é muito mais complicado justamente porque o negro . A questão racial e a questão social se confundem a ponto de pobres e pretos serem uma coisa só ao olhar de certa elite. A integração dos negros varia imensamente de região para região do país. No entanto, é verdade, sim, que os negros são particularmente mais discriminados, mais aprisionados (literalmente), menos abrigados pelos parcos recursos do Estado do que os demais desvalidos. Isso justifica -- não fosse a dívida dos 300 anos já sufuciente para tal -- a idéia de se pensar em cotas. Como disse alguém outro dia no jornal, se os intelectuais não sabem como distinguir pretos de brancos, é só chamar uns PMs e uns porteiros de prédio como consultores. Porém, acho que o assunto cotas é tratado ou demagogicamente (versão Garotinho-Rosinha) ou precipitadamente (versão UFs). Cota é necessária mas não é suficiente. Ninguém discute como sair delas, e essa é uma discussão fundamental. Tampouco se discutem contrapartidas. É fato que há mais negros em má condição de ensino do que mulatos e brancos, mesmo fazendo a aomparação dentro de uma mesma escola. Isso permite depreender a existência de discriminação, de resto verificada com um palmozinho de aprofundamento. Mas acho que, ao máimo possível, é preciso colocar a discussão em bases menos emocionais. Nesse sentido, me parece que 120 anos já são suficientes.

jayme disse...

Ops, faltou um pedaço no meio:

(...) justamente porque o negro rapidamente se integrou, seja pela pobreza, seja pela improvável permeabilidade de nossa sociedade. (...)

Scurpaí.

jayme disse...

Em tempo: concordo, negro é lindo.

pecus disse...

Gabriel, é verdade. A escravidão em massa no mundo capitalista e em plena instalação das democracias é o auge do crime de instrumentalização do ser humano. Mas os criminosos e as vítimas estão todos mortos.

Neil Son disse...

nossa, a coisa t� bombando!! e eu, que levantei a lebre, n�o me sinto capacitado a discutir no nivel do jayme ou do gabriel...

jayme disse...

Pecus, de certa forma não estão. Eu fiquei muito impressionado com as conversas que tive com uma amiga educadora -- paulistana, nissei -- dando conta das pesquisas que menciono superficialmente ali em cima. A discriminação "adicional" que os negros sofrem é uma herança maldita daqueles tempos. Ela mantém vivos os personagens, mesmo que na forma de fantasmas medonhos. No caso da educação pública, as estatísticas são assustadoras e mostram uma cena de negros indo direto e majoritariamente para o corredor da miséria. A idéia de favorecer a integração me parece pertinente.

Neil Son disse...

e os fãs do roque jr, anna e guga, podem me dizer por onde anda o belo?

jayme disse...

Ele ainda é sucesso no Largo da Batata, Neil.

Gabriel disse...

Ao pecus. Eu estou vivo, rapaz... Nem queira saber quantos tapas na cara já tomei de coxinha folgado por causa dessa exploração tão morta e envelhecida.
Ao Jayme, à lá estripador; claro que o negro é parte inalienável do nosso Brasilzão! São nossas – não só, é claro – as bases da identidade cultural, étnica, política, enfim, desse país. Somos maioria numérica. Mas a exclusão passa por representatividade política. E isso, é coisa novíssima para nós. Mesmo que já tenhamos tido um presidente da República negro (Nilo Peçanha era preto), ele próprio não se considerava assim. Continuamos minoria. E, por mais que tenhamos nossa história batida com cal nos alicerces do Brasil, nossa representatividade propriamente dita ainda é parca, para não dizer semi-nula. Como eu já disse, nossos caminhos são sempre por música, futebol e crime – os únicos espaços em que não somos barrados de berço.
Quanto às cotas... Antes, um parêntese: sou plenamente favorável à política de inclusão do negro no ensino superior, não apenas como reparação, mas como uma maneira de construir dessa imensa massa hipócrita e parasita um país mais plural. Fechado parêntese, não gosto de dissociar as cotas da política de ação afirmativa em que elas estão inseridas. Não acho que possamos chamar essa idéia de meramente emocional... Faz trinta anos que o movimento negro, ao lado de diversos outros movimentos sociais, discute políticas de inserção de minorias, não apenas nas universidades, mas em todos os campos da vida pública. A idéia é exatamente o contrário do que se possa chamar de segregacionista. É muito plural. É oportunidade para todos.
Só que a oportunidade só pode surgir com auto-estima. Não adianta nada você colocar um negro ou um índio numa universidade, numa empresa ou propaganda, argumentando que ele está lá porque ele é tão bom, tão bom, que parece um branco. Não. A idéia é que ele chegue lá em condições de dizer: “sou tão bom quanto um branco um preto ou um japonês”, conhecendo suas semelhanças e diferenças; entendendo que não somos a mesma coisa. Somos de uma mesma raça (humana), mas não exatamente iguais porque a extinção do conceito sociológico de raça não acaba com o conceito histórico/empírico de racismo.
Creio que as ações afirmativas sejam um meio de colocar o debate sobre racismo na mesa, conhecer nossas diferenças, encarar nossos problemas e podermos nos dizer, futuramente, realmente miscigenados. Hoje, não somos muito mais do que um bando de alienígenas que se odeiam e fingem que se amam. É esse o Brasil na ótica do negro e vai ser dificílimo me convencer do contrário porque eu sei localizar o racismo em qualquer lugar que eu vá. Não precisa de uma placa – como as dos americanos – que me diga que não sou bem vindo em determinado ambiente. Um olhar de medo, apreensão, desconfiança, já resolve.
É hora de encararmos essas diferenças que nos foram impostas. Encaremos que hoje somos diferentes, para que nossos netos possam dizer-se iguais. Ou melhor, para que isso nem passe pela cabeça deles.
PS: Roque Júnior jogou no time do Zidane, no amigos do Zidane contra amigos do Ronaldo!

Neil Son disse...

putz, esse gabriel é mesmo brilhante...

Neil Son disse...

pergunta: quer dizer que o roque jr. é mais amigo do zidane do que do ronaldo?? hummm...

jayme disse...

Assim, faz todo o sentido, Gabriel. Um ponto: o que espero como utopia é que, nesse dia da igualdade, chamar o amigo de "Negão" tenha o mesmo peso de chamar o ruivo de "Foguinho" ou o loiro de "Alemão". Vamos chegar lá.

luisa disse...

esse meu irmão é sensacional. só me dá orgulho. por causa de pessoas como ele é que ainda tenho esperanças de um futuro melhor.

GUGA ALAYON disse...

o belo? acho que preso, não?